A combinação parece paradoxal: colocar um motor a combustão dentro de um veículo elétrico. Ainda assim, essa arquitetura vem deixando de ser vista como “retrocesso” e passando a ser encarada como uma saída pragmática - especialmente na forma dos veículos elétricos com extensor de autonomia (EREV). Segundo a BorgWarner, uma das maiores fornecedoras da indústria automotiva, o interesse por esse tipo de solução está crescendo de maneira forte não apenas na China, mas também na Europa.
Em termos simples, o extensor de autonomia usa um motor a combustão como gerador para produzir eletricidade e manter a bateria carregada quando necessário, reduzindo a ansiedade de ficar sem carga em trajetos longos. Na prática, o carro segue com condução elétrica, enquanto o motor a combustão entra como “plano B” para ampliar o alcance - algo particularmente atraente onde a infraestrutura de recarga ainda não acompanha o ritmo de vendas.
BorgWarner e a alta dos EREV com extensor de autonomia
Em entrevista ao Automotive News Europe, Harry Husted, vice-presidente e diretor técnico da BorgWarner, disse que essa arquitetura “está ficando mais atrativa” para as montadoras. Na avaliação dele, o principal apelo é permitir que fabricantes aproveitem investimentos já feitos em plataformas 100% elétricas, ao mesmo tempo em que reintroduzem um motor a combustão no conjunto para resolver o tema da autonomia.
Esse movimento não nasce do zero. A tecnologia existe há anos, mas volta ao centro da discussão como alternativa prática para quem ainda tem receio da autonomia limitada dos elétricos - sobretudo em viagens longas, regiões com poucos carregadores ou usos que exigem maior previsibilidade de alcance.
China puxa o mercado de veículos elétricos com extensor de autonomia (EREV)
Na China, essa fórmula já virou um segmento relevante. Marcas como a Li Auto lideram a categoria, em um cenário no qual os EREV representam uma parcela importante das vendas. O sucesso por lá reforça a tese de que, para parte do público, a transição para a eletrificação total acontece mais rápido quando existe um “amortecedor” contra imprevistos de recarga.
Além do consumidor, a cadeia industrial também ganha um incentivo: soluções EREV mantêm demanda por componentes de eletrificação (motores, inversores e baterias) e, ao mesmo tempo, preservam espaço para sistemas ligados ao motor a combustão - um ponto em que fornecedores globais como a BorgWarner podem atender diferentes estratégias das montadoras.
Europa adota o conceito com novos modelos e planos anunciados
No mercado europeu, o conceito também começa a ganhar espaço. A Leapmotor, com apoio da Stellantis, colocou no mercado o SUV C10 com essa tecnologia por um preço abaixo de € 40 mil (€ 38 mil em Portugal). A Mazda já oferece o MX-30 seguindo o mesmo princípio, e BMW, Volkswagen e Ford confirmaram planos para colocar esse tipo de propulsão em modelos futuros.
Esse avanço tende a ser impulsionado por uma combinação de fatores: consumidores buscando flexibilidade, montadoras tentando equilibrar custos de desenvolvimento e, em alguns países, o desafio de conciliar metas de emissões com a realidade da infraestrutura de recarga fora dos grandes centros.
Extensor de autonomia pode conquistar também os EUA
Tanto Husted quanto Paul Farrell, diretor de estratégia da BorgWarner, avaliam que os Estados Unidos podem se tornar o próximo grande palco para a tecnologia. A justificativa apontada por eles é direta: a necessidade de autonomia elevada em situações de trabalho, especialmente para quem transporta carga ou reboca com frequência.
“Quando é preciso rebocar ou levar algo volumoso, um elétrico puro não é a melhor solução”, explicou Husted. Farrell complementou dizendo que os extensores de autonomia “provavelmente serão uma resposta” para o mercado norte-americano - embora tenha reconhecido que “ainda é cedo” para cravar o ritmo dessa adoção.
Um exemplo concreto citado nesse contexto é a Stellantis. Após desistir da versão totalmente elétrica da picape Ram 1500, o grupo confirmou a chegada da Ram 1500 REV, equipada com um gerador a gasolina responsável por alimentar a bateria elétrica.
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