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Dia de São Patrício: Livros didáticos podem estar errados sobre por que as plantas são verdes

Menino em jaleco branco observa a dispersão da luz em uma folha verde usando prisma em mesa com livros e folhas.

As colinas verdejantes da Irlanda exibem um tom intenso que talvez não tenha surgido pelo mecanismo que inúmeros livros didáticos repetem há décadas.

Muita gente aprende que a clorofila - o conjunto de pigmentos que permite às plantas obter energia da luz - “reflete” luz verde, e que isso explicaria por que tantas folhas parecem um esmeralda chamativo. Só que essa explicação, ao que tudo indica, é um equívoco bastante difundido.

Um artigo científico de 2020 propõe que a clorofila não reflete luz. Em vez disso, ela simplesmente absorve com mais força a luz azul e a luz vermelha, deixando a luz verde com maior probabilidade de se espalhar (ser espalhada/difusamente refletida) para fora da folha - possivelmente a partir de estruturas como as paredes celulares.

A clorofila continua sendo parte da história por trás do verde das plantas - porém não do jeito simplificado que muitos manuais apresentam. E, ao que tudo indica, o processo real é mais interessante e mais complexo do que a versão “padrão”.

Clorofila e folhas verdes: por que a luz verde se destaca sem ser “refletida” pela clorofila

“Folhas de plantas são verdes porque a luz verde é absorvida com menos eficiência pelas clorofilas a e b do que a luz vermelha ou azul e, portanto, a luz verde tem maior probabilidade de ser refletida de modo difuso pelas paredes celulares do que a luz vermelha ou azul”, escreve uma equipa liderada pelo biólogo molecular de plantas Olli Virtanen, da Universidade de Turku, na Finlândia.

“Clorofilas não refletem luz.”

A explicação mais comum para o verde das plantas se apoia numa regra básica da óptica: a cor de um objecto depende do comprimento de onda da luz que ele reflete. Para um objecto plano e homogéneo - como um bloco de Lego - isso funciona bem, porque o espectro de reflexão tende a se comportar como um “espelho” do espectro de absorção.

Só que uma folha está longe de ser tão simples quanto um bloco de plástico: ela é formada por várias camadas, materiais e microestruturas. Num sistema heterogéneo assim, a luz pode sofrer interacções mais elaboradas: uma parte do tecido pode absorver, enquanto outra pode ser a principal responsável pelo espalhamento.

O padrão de absorção da clorofila é conhecido há muito tempo: a absorção é mais intensa nas regiões violeta-azulada e vermelha do espectro visível, e menos intensa na faixa do verde.

Luz verde também serve para a fotossíntese

Outra ideia comum é que a luz verde seria “inútil” para as plantas. Os autores lembram que as folhas absorvem comprimentos de onda verdes apenas cerca de 20% a 30% menos eficientemente do que a luz vermelha ou azul. E como a luz verde penetra mais fundo nas folhas e no dossel (a copa/“cobertura” vegetal), ela pode contribuir para a fotossíntese nas camadas inferiores, onde outras cores chegam com mais dificuldade.

Ainda assim, absorver menos luz verde não significa que a clorofila esteja a refletindo essa luz.

Experimentos com folhas verdes, amarelas e brancas

Para testar a questão, Virtanen e colegas fizeram uma série de medições para comparar como folhas de diferentes cores devolvem luz: não apenas folhas verdes, mas também folhas amarelas e brancas, que contêm quantidades distintas de clorofila. Em geral, folhas amarelas têm bem menos clorofila do que folhas verdes da mesma espécie; folhas brancas não têm clorofila.

A equipa mediu quanto de cada faixa de comprimentos de onda era refletida por esses tipos de folhas - e o resultado chamou atenção: folhas amarelas e brancas refletiram mais luz verde do que as folhas verdes.

  • Folhas verdes refletiram menos de 10% da luz verde incidente.
  • Folhas amarelas refletiram cerca de duas vezes mais luz verde do que as folhas verdes.
  • Folhas brancas refletiram aproximadamente 30% da luz verde.

Se a clorofila fosse a responsável por “refletir” a luz verde, folhas com menos clorofila (ou sem clorofila) deveriam refletir menos verde. Como aconteceu o contrário, a conclusão é que outra componente do tecido foliar está a fazer a maior parte do espalhamento.

Os pesquisadores sugerem que esse “outro” elemento seja provavelmente a celulose nas paredes das células vegetais, embora enfatizem que serão necessários estudos adicionais para confirmar.

Se folhas sem clorofila refletem mais verde, por que não parecem mais verdes?

É natural ficar com duas dúvidas: 1. Se folhas sem clorofila refletem mais luz verde, por que elas não parecem ainda mais verdes? 2. Se folhas com clorofila refletem tão pouco verde, por que o verde delas é tão vivo?

As respostas envolvem, de um lado, as propriedades da luz refletida e, do outro, o funcionamento da nossa visão.

Folhas brancas e amarelas não aumentam apenas a reflexão do verde: elas tendem a refletir mais luz em várias partes do espectro. A cor que percebemos é aquela que predomina na luz refletida. No caso das folhas amarelas, o tom dominante é, justamente, o amarelo.

Já as folhas brancas refletem de forma mais uniforme ao longo do espectro visível. Pense num prisma separando a luz nas suas cores constituintes: quando essas cores se recombinam em proporções equilibradas, a percepção resultante é branco.

A sensibilidade do olho humano favorece o verde

Em condições normais de luz do dia, há um detalhe curioso: o olho humano é especialmente sensível a comprimentos de onda na região do verde. Com a mesma intensidade física, o verde tende a parecer mais brilhante para nós do que outras cores.

Por isso, basta uma quantidade relativamente pequena de verde espalhado para que ele “domine” a percepção. Assim, mesmo que folhas verdes absorvam a maior parte da luz verde, o pouco que é difusamente refletido por outras estruturas internas já é suficiente para produzir um verde vivo, quase vívido.

“Com estes dados”, escrevem os autores, “procuramos refutar e corrigir o equívoco comum de que a clorofila reflete luz verde”.

Um olhar extra: estrutura da folha e o papel do ambiente

Além da clorofila, a aparência de uma folha depende muito da microarquitectura interna: a disposição das células, os espaços de ar entre tecidos e a espessura das camadas podem aumentar ou reduzir o espalhamento da luz. Em plantas da mesma espécie, variações de idade da folha, hidratação e até stress ambiental podem alterar como a luz se distribui no tecido e, com isso, mudar subtilmente a tonalidade percebida.

Também vale lembrar que outros pigmentos influenciam a cor: carotenóides (associados a amarelos e alaranjados) e antocianinas (frequentemente avermelhadas/arroxeadas) podem ganhar destaque conforme a estação, a luz disponível e o estado fisiológico da planta - o que ajuda a explicar por que uma mesma copa muda de cor ao longo do ano.

Então está aí: agora você tem uma explicação mais fiel para o motivo de o seu trevo-de-quatro-folhas ser verde. Quanto à origem de seus poderes místicos, essa continua algures “para lá do arco-íris”.

A pesquisa foi publicada no Journal of Biological Education.

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