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Não é só elétrico. Conduzimos o novo Mercedes-Benz CLA a gasolina

Carro branco Mercedes-Benz CLA Fuel exposto em showroom com detalhes em preto e rodas esportivas.

No Mercedes-Benz CLA a gasolina não existe “ansiedade de autonomia”; ainda assim, o elétrico entrega um nível de refinamento superior.


A promessa parecia irresistível - e a Mercedes-Benz embarcou nela como tantas outras marcas: decretar o fim dos motores a combustão e migrar, de forma quase exclusiva, para a propulsão elétrica, mais limpa e silenciosa. Só que, na prática, a realidade do mercado tratou de esfriar esse entusiasmo. Assim como a maioria dos fabricantes, a marca da estrela precisou recalcular a rota.

Com isso, alguns planos de linhas 100% elétricas foram postergados, e as versões a gasolina voltaram a ganhar prioridade. A consequência direta foi um desafio técnico pouco comum: depois de anos adaptando plataformas originalmente criadas para combustão a fim de receber conjuntos elétricos (mesmo com concessões), a Mercedes-Benz agora teve de fazer o caminho inverso.

A missão passou a ser transformar a nova plataforma MMA - concebida inicialmente para veículos elétricos - em uma base capaz de acomodar também um motor a combustão. E o resultado, no conjunto, ficou convincente: visualmente e do ponto de vista de engenharia, o Mercedes-Benz CLA com motor a gasolina é praticamente indistinguível do “irmão” elétrico.

A grande diferença aparece ao abrir o capô. No lugar do pequeno porta-malas dianteiro (“frunk”) do CLA elétrico, entra em cena um quatro-cilindros 1,5 turbo a gasolina, fabricado pela Horse (joint venture do Grupo Renault com a Geely).

CLA a gasolina vs. elétrico: tecnicamente, são bem diferentes

No CLA elétrico, a arquitetura privilegia a tração traseira (com exceção do 350 4MATIC, que adiciona um motor no eixo dianteiro). As baterias de 58 kWh ou 85 kWh ficam posicionadas entre os eixos. Já o Mercedes-Benz CLA a gasolina com sistema mild-hybrid muda bastante a receita: é essencialmente de tração dianteira, embora exista a possibilidade de tração integral em determinadas versões.

Em Portugal, por enquanto, há apenas as versões de tração dianteira: CLA 180 (156 cv e 280 Nm) e CLA 220 (211 cv e 380 Nm). Nesta experiência, porém, não foi nenhum desses dois o escolhido - e sim o CLA 200 4MATIC, com tração nas quatro rodas, 184 cv e 330 Nm. E faz sentido: o primeiro contato aconteceu nos Alpes austríacos, com estradas cobertas de neve.

Por ser mild-hybrid, este CLA utiliza uma rede elétrica de 48 V, com motor elétrico de 22 kW (30 cv) e um módulo de bateria pequeno, de apenas 1,3 kWh.

Aerodinâmica afiada e foco em consumo

Assim como no elétrico, o Mercedes-Benz CLA a gasolina também aposta forte em eficiência aerodinâmica. Há detalhes de carroceria voltados a reduzir arrasto, como extremidades rebaixadas, proteções inferiores, um pequeno aerofólio sob a tampa do porta-malas e maçanetas embutidas, alinhadas à carroceria. O resultado é um coeficiente aerodinâmico (Cₓ) de referência, estimado na faixa de 0,23–0,24 (um pouco acima dos 0,21 do CLA elétrico).

Na prática, isso ajuda diretamente a reduzir consumo. Os números oficiais desta versão indicam 5,7 L/100 km e autonomia próxima de 900 km - favorecida também pelo tanque de 51 litros montado na traseira. Resta ver se essa eficiência se confirma nas condições reais de uso em Portugal.

Um ponto adicional, especialmente relevante para quem roda muito: além da aerodinâmica, o acerto de transmissão e a estratégia do sistema híbrido leve podem influenciar bastante o gasto de combustível em trechos urbanos e em rodovias com muitas variações de relevo - justamente cenários em que um mild-hybrid tende a alternar mais vezes entre assistência elétrica, recarga e funcionamento do motor a gasolina.

Na estrada… e com neve no caminho

Abrir a porta, sentar ao volante e dar a partida é, na rotina, quase igual ao CLA elétrico. Um toque no botão de ignição e o 1,5 turbo ganha vida, pronto para entregar 163 cv nesta configuração intermediária, a 200.

Considerando o frio intenso do teste e o asfalto coberto de neve (condição normal no inverno em áreas altas da Europa), a presença de um câmbio automatizado de dupla embreagem e oito marchas - com trocas suaves e rápidas - vira uma vantagem importante, especialmente porque ajuda a dosar a força enviada às rodas com mais precisão.

Na descida de Hochgurgl, de 2.150 m para 1.700 m de altitude, quase na fronteira entre Áustria e Itália, a tração integral (capaz de mandar até 40% da potência ao eixo traseiro) e os pneus de inverno somam tração e elevam a confiança de quem não tem tanta familiaridade com piso escorregadio.

A suspensão mostra um acerto bem pensado, buscando um meio-termo entre conforto e estabilidade. A carroceria baixa também colabora para manter o carro assentado. Evidentemente, não é cenário para atacar curvas em alta velocidade - tão ou mais inadequado do que correr 100 m com barreiras usando salto alto -, mas os sinais de competência dinâmica aparecem. A direção se mostra suficientemente direta e precisa, e a frenagem não apresenta aquele tato esponjoso no pedal visto em alguns Mercedes de passado recente.

Desempenho: o 1.5 turbo dá conta do recado

A resposta do motor agrada desde baixos giros. Mesmo com quase 1,8 tonelada no CLA 200 4MATIC - prova de que não são apenas os elétricos que carregam muito peso -, o 1,5 turbo movimenta o conjunto com boa disposição.

Embora a versão de entrada CLA 180 (156 cv) não tenha sido guiada, fica a impressão de que o CLA 200 seria o ponto de partida mais adequado na gama, pelo desempenho mais convincente: são 184 cv no total, combinando 163 cv do motor a gasolina com 30 cv do sistema elétrico. Ele acelera de 0 a 100 km/h em 7,9 s, atinge 228 km/h de máxima e se beneficia do “empurrão” elétrico nas retomadas.

Um aspecto que vale considerar na escolha é o tipo de uso: em deslocamentos urbanos com trânsito e arrancadas frequentes, a assistência elétrica tende a ser mais perceptível e útil. Já em estrada, o conjunto depende mais do motor a combustão, e aí entram em cena o isolamento acústico e a forma como o câmbio administra reduções e acelerações intermediárias.

Motorização ainda tem margem para evoluir

O que costuma pesar não é tanto o “quanto” entrega, e sim o “como” entrega. Mesmo respondendo bem, o Mercedes-Benz CLA a gasolina deixa uma ressalva clara: o som do motor não parece tão refinado quanto se espera de um carro com a estrela no capô.

Em acelerações mais fortes, a sonoridade invade a cabine de um jeito pouco elegante, chegando a incomodar ouvidos acostumados ao padrão tradicional de silêncio e isolamento de um modelo premium - atributo que a marca alemã ainda sustenta como referência global.

Para enxergar o lado positivo, um 1,5 litro favorece a economia em cargas parciais, e esta unidade não soa pior do que alguns três-cilindros 1,5 da BMW. Ainda assim, em um carro acima dos 50 mil euros, era razoável esperar um tratamento acústico mais caprichado - e é justamente isso que aparece no CLA elétrico.

Além do ruído, a sintonia entre as duas fontes de energia (gasolina e elétrica) poderia ser mais refinada. Em certas situações, a transição não é totalmente lisa, com pequenas hesitações. O motivo está na estratégia de saída: o sistema tende a colocar o motor elétrico para mover o carro primeiro, e só depois o motor a combustão entra em ação. Só que o 1,5 turbo precisa de um instante para ganhar giro e vencer o atraso do turbo.

O ideal seria inverter a lógica - ou, no mínimo, acionar combustão e elétrico simultaneamente. Há uma forma simples de contornar isso: selecionar o modo Sport, que mantém o motor a gasolina sempre ligado. A resposta melhora, mas o consumo tende a aumentar.

Por outro lado, diferentemente da maioria dos mild-hybrid, aqui existe sailing elétrico: é possível “navegar” com o motor a gasolina desligado (graças a uma terceira embreagem), desde que a potência solicitada não passe de 30 cv e a velocidade fique abaixo de 100 km/h - algo especialmente útil em ambiente urbano. O sistema também permite recuperar até 25 kW nas oito marchas.

Por fim, fica a crítica à troca das tradicionais borboletas atrás do volante (para trocas manuais de marcha) por um seletor, também atrás do volante, de puxar e empurrar - bem menos intuitivo. Ao menos há uma boa notícia: a própria Mercedes-Benz já reconheceu a questão e afirmou que deve voltar ao sistema anterior o quanto antes.

Já à venda em Portugal (e com comparações que chamam atenção)

Como citado, a versão CLA 200 4MATIC guiada neste contato não é oferecida em Portugal. Na linha a gasolina, por enquanto, a oferta se concentra nos Mercedes-Benz CLA de tração dianteira: CLA 180 e CLA 220, com preços a partir de 48.150 euros e 51.200 euros, respectivamente.

Tração integral, por sua vez, só no CLA elétrico, na configuração 350+ 4MATIC, com 260 kW (354 cv) e preços a partir de 60.050 euros.

E há outro dado que pesa na decisão: o elétrico de entrada, o CLA 200 com tecnologia EQ, custa apenas 600 euros a mais (48.750 euros) do que o CLA 180 a gasolina. Além disso, é mais forte e mais rápido - 165 kW (218 cv) -, embora não consiga igualar a autonomia do a combustão: são 541 km.

Veredito

Especificações técnicas

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