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Esqueça o Burj Khalifa e a Torre de Xangai: a torre de 1km da Arábia Saudita mostra a obsessão global por projetos de vaidade inúteis.

Pessoa analisando maquete arquitetônica com prédios e arranha-céu em escritório moderno.

O motorista de táxi aperta os olhos para a linha do horizonte, tamborila no volante e solta, sem cerimónia: “Mais alto. Eles sempre querem mais alto.”

A gente avança a passo de caracol no trânsito do fim da tarde, com poeira no ar, guindastes recortando o fundo e um calor que gruda na pele. Depois de uma sequência de torres pela metade, ele aponta para uma forma distante, perdida na névoa, onde a torre de 1 km na Arábia Saudita deveria surgir - alta o bastante para transformar o Burj Khalifa (Dubai) e a Shanghai Tower em meros rascunhos de aquecimento.

Nos outdoors, as imagens de projeto parecem coisa de filme: carros voadores, parques suspensos, uma agulha de vidro furando as nuvens. No chão, o que se vê é poeira, barulho e relatos de hora extra não paga.

Ele ri e, num tom mais baixo, emenda: “Para quem isso é, de verdade?”

A pergunta fica no ar por mais tempo do que a própria paisagem.

Quando a altura vira vício: a torre de 1 km na Arábia Saudita e a corrida pelo “mais alto do mundo”

Basta ficar ao pé do Burj Khalifa para entender o truque: o pescoço desiste antes dos olhos. Você inclina a cabeça, fecha um pouco a vista, recua um passo - e o prédio continua subindo, como se o céu fosse uma provocação. As pessoas prendem a respiração, erguem o celular, fazem selfies. Por alguns segundos, dá aquela sensação de pequenez misturada com fascínio, quase infantil, como quem encara um foguete.

Só que, logo depois, aparecem os detalhes que não cabem no cartão-postal: o corredor do shopping com lojas vazias, andares escuros de escritórios, equipes de limpeza passando em silêncio, como sombras.

É aí que o encanto dá uma falhada.

A futura torre de 1 km na Arábia Saudita é vendida como o próximo salto dessa disputa. Um edifício tão alto que, em termos de impacto visual, seria como empilhar quase duas Torres Eiffel acima do Burj Khalifa - uma exibição vertical que funciona bem em apresentações de PowerPoint e em fotos vistas de avião. O preço? Bilhões: números tão grandes que parecem irreais, embalados em frases como “vida urbana pronta para o futuro” e “redefinir o potencial humano”.

Nas imagens de projeto, a cidade aparece limpa, jovem, luminosa. Não existe onda de calor. Não existe engarrafamento. Não existe trabalhador pendurado em andaime às 2 da manhã porque o cronograma escorregou e o bônus de alguém depende de uma data marcada de vermelho.

Essas torres recordistas viraram a Fórmula 1 do ego nacional. Do ponto de vista da engenharia, impressionam. Do ponto de vista do uso, muitas vezes soam estranhas: superdimensionadas, subaproveitadas, mais símbolo do que solução. Só que cidade também precisa de hospital, drenagem e proteção contra alagamentos, habitação acessível e transporte público que funcione. Isso quase nunca vira capa de revista com papel brilhante.

E há um padrão difícil de ignorar: booms de arranha-céus “mega-altos” costumam aparecer tarde no ciclo económico, pouco antes de a realidade cobrar a conta. É o mesmo roteiro que se viu em cidades fantasma na China ou em condomínios de luxo sem vida em capitais globais. O subtexto é sempre parecido: priorizamos o espetáculo e deixamos o sentido de lado.

Uma torre de 1 km não conserta uma cidade. Ela cristaliza uma obsessão em vidro e concreto.

Antes de tudo, vale olhar para o custo de oportunidade - o que se deixa de fazer quando se escolhe a vitrine. Em regiões quentes e secas, por exemplo, cada real investido em “altura recorde” poderia competir com projetos muito menos fotogénicos e muito mais urgentes: corredores de sombra, arborização, pavimentos que reduzem ilhas de calor, redes de água com menos perdas, e infraestrutura para enchentes súbitas (cada vez mais comuns com a mudança do clima). Quando o orçamento é finito, o “troféu” sempre tem um outro lado.

Também existe a dimensão de risco: grandes ícones dependem de fluxo constante de turistas, investidores e eventos. Se a economia desacelera, se a demanda imobiliária muda, se o custo de energia dispara, o que era promessa de futuro pode virar um passivo difícil de manter - e, em edifícios superaltos, manutenção é parte central do problema, não um detalhe.

Como enxergar além das imagens de projeto

Dá para fazer um exercício simples sempre que surgir o próximo anúncio do “prédio mais alto do mundo”.

Ignore os fogos. Ignore o show de drones. Ignore os vídeos de helicóptero gerados por computação gráfica girando em torno de uma torre que ainda não existe.

Em vez disso, faça uma pergunta seca, quase chata - e por isso mesmo poderosa: qual problema isso resolve, na prática?

Se a resposta honesta for “prestígio nacional”, “isca para Instagram” ou “manter o dinheiro da construção civil circulando por mais um tempo”, você já entendeu mais do que o comunicado oficial gostaria.

Direitos de se gabar no urbanismo rendem manchete. Raramente rendem boas cidades.

Quando a gente revisita projetos superaltos do passado, o desenho se repete com insistência. Muitas torres de luxo em Londres, Nova York ou Dubai viraram cofres de investimento no céu: luzes apagadas à noite, apartamentos no nome de empresas de fachada, quase nenhuma vida de bairro.

No nível mais humano, a pergunta precisa ir para quem mora ali: como esses megaprojétos alteraram o dia a dia? As respostas costumam incluir ambulantes proibidos, famílias deslocadas, alugueis subindo, poeira de obra invadindo varandas.

No nível técnico, o consumo de energia e água tende a disparar. Manter uma agulha de vidro fresca com 45 °C do lado de fora não é exatamente amigo do clima - por mais otimista que seja a cartilha de sustentabilidade.

Outro atalho mental ajuda a cortar o verniz: siga o rastro da manutenção. Quem vai pagar para manter elevadores, resfriadores, sistemas de incêndio e fachadas seguros e operando em 20, 40, 60 anos?

Altura recorde significa complexidade recorde. Em laboratório, tudo bem. No orçamento futuro de uma cidade já pressionada por infraestrutura envelhecida e custos de adaptação climática, isso vira uma bomba-relógio.

Como me disse um urbanista, tomando café:

“Todo mundo quer cortar a fita de um marco. Ninguém quer bancar a conta de manutenção de 50 anos.”

Para avaliar com mais clareza, use este trio de perguntas:

  • Observe o que o projeto substitui: havia uma comunidade, uma área úmida, um bairro popular?
  • Veja quem ganha primeiro: compradores de luxo, investidores estrangeiros ou quem já vive ali?
  • Pergunte se escala: é um troféu isolado ou parte de um tecido urbano coerente e habitável?

A alternativa silenciosa ao pico de ego de 1 km

Existe outro jeito de ler o horizonte: não como placar, e sim como exame de saúde. Uma cidade cheia de projetos de vaidade costuma parecer um feed com filtro demais - chamativa, sim, porém um pouco artificial, um pouco vazia.

O oposto quase não dá ibope, mas é muito mais transformador: edifícios de média altura que conseguem ficar confortáveis sem contas absurdas de energia; ruas com sombra onde dá para caminhar à tarde; parques no lugar de podiuns gigantes com shoppings; espaços públicos que convidam a ficar, não apenas a fotografar.

Soa quase sem graça. E é justamente por isso que funciona.

Planejadores focados em escala humana falam em “vida de 15 minutos” em vez de espetáculo vertical: mercado, escola, trabalho, parque - tudo alcançável rapidamente sem depender de carro ou de um elevador panorâmico. Paris, Barcelona e até partes de Riad vêm avançando, discretamente, com ciclovias, calçadas sombreadas e requalificação de áreas públicas.

Essa mudança não vira notícia global como “o prédio mais alto do mundo”. Mas torna a vida diária menos desgastante.

Todo mundo já viveu a cena: tirar uma foto da skyline e, em seguida, passar o resto do dia preso no trânsito ou caçando um pedaço de sombra. É nessa distância entre o postal e a realidade que uma cidade fracassa - ou acerta.

Há ainda um custo psicológico nessa obsessão por altura. Quando tudo é “icónico”, nada parece especial. Moradores podem começar a se sentir figurantes num cenário montado para investidores estrangeiros, consultores e tomadas aéreas.

Um arquiteto saudita, pedindo para não ser identificado, resumiu assim:

“Meu projeto dos sonhos não é uma torre de 1 km. É um bairro onde crianças consigam brincar na rua às 16h de agosto sem risco de insolação.”

No fundo, a lista que mais importa costuma ser bem menos glamourosa:

  • Consigo pagar para morar perto do trabalho?
  • Meus filhos têm lugares seguros para brincar e caminhar?
  • O calor do verão me obriga a ficar trancado por meses?
  • O transporte público é usável ou é só frase de relações públicas?
  • A cidade foi desenhada para moradores ou para fotos?

A torre de 1 km proposta na Arábia Saudita, assim como o Burj Khalifa e a Shanghai Tower antes dela, expõe algo desconfortável sobre a nossa época. A gente celebra “inovação” enquanto repete os mesmos gestos grandiosos que já se mostraram vazios em outros lugares. A gente fala em sustentabilidade enquanto persegue recordes de altura que travam custos enormes de materiais e energia por décadas.

Não é que prédios altos sejam, por si, um mal. O problema é que torres erguidas como troféus raramente servem quem vive na sombra delas.

Os projetos urbanos mais radicais dos próximos 30 anos provavelmente não serão os mais altos. Serão os que mantiverem as cidades habitáveis em verões de 50 °C, os que reduzirem a brutalidade do aluguel, os que transformarem terrenos vazios em praças sombreadas.

Sejamos honestos: ninguém acorda pensando “queria que minha cidade tivesse uma agulha de vidro um pouco mais alta”. As pessoas acordam pensando em aluguel, tempo de deslocamento, calor, barulho, segurança e um mínimo de dignidade.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Vaidade vs. utilidade Torres superaltas costumam atender mais a prestígio e especulação do que a necessidades reais. Ajuda a identificar o exagero por trás do marketing do “mais alto do mundo”.
Custos escondidos Manutenção, consumo de energia e impactos sociais raramente entram nos comunicados oficiais. Facilita questionar quem paga, de fato, esses megaprojétos ao longo do tempo.
Cidades na escala humana Bairros caminháveis, sombreados e de média altura entregam uma vida cotidiana melhor, sem alarde. Oferece uma visão mais realista do que podem ser as “cidades do futuro”.

Perguntas frequentes

  • Uma torre de 1 km na Arábia Saudita é mesmo viável? Do ponto de vista técnico, sim: a engenharia dá conta. O que costuma ser bem mais incerto são prazos, orçamento e vontade política - apesar do que sugerem as imagens impecáveis.
  • Por que países insistem em disputar o prédio mais alto? Porque altura comunica rápido: riqueza, poder e modernidade. É “marca geopolítica” feita de aço e vidro.
  • Esses projetos não geram empregos? Geram trabalho na construção, mas em geral são vagas temporárias, muitas vezes mal remuneradas e duras, e nem sempre viram benefício local de longo prazo.
  • Torres superaltas são sustentáveis ambientalmente? Podem incorporar tecnologia verde, mas a pegada de materiais e a demanda de resfriamento tornam difícil falar em sustentabilidade plena.
  • O que deveríamos procurar em vez de recordes de altura? Cidades investindo em sombra, transporte público, habitação acessível e infraestrutura resiliente que melhore a vida diária de verdade.

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