O segundo painel da 36ª Convenção Anual da ANECRA reuniu profissionais de diferentes frentes para discutir a mudança acelerada no setor automotivo, com foco nas implicações e nos caminhos possíveis para a mobilidade sustentável.
Com mediação da jornalista Ana Sofia Cardoso, a conversa colocou à mesa Pedro Nuno Ferreira (AESE), Susana Castelo (TIS), Guilherme Marques (Shell/PRIO), Gonçalo Machado da Cruz (ARVAL) e João Reis (PCBC). O tom foi marcado por avaliações objetivas, divergências conceituais e avisos sobre gargalos estruturais que podem atrasar a transição.
Mobilidade sustentável e o futuro dos veículos elétricos
A provocação de abertura - se o futuro será, de fato, 100% elétrico - recebeu respostas cautelosas. Embora a eletrificação avance, os participantes enfatizaram que não há uma resposta única para todo o mercado e que a transição tende a ser mais longa do que se imagina.
Guilherme Marques, membro da Comissão Executiva da PRIO e COO da Shell, lembrou que hoje existem 78 milhões de veículos elétricos circulando no mundo. Em outras palavras, a cada quatro carros vendidos, um já é elétrico. Ainda assim, mesmo no cenário mais favorável, a mudança completa só deve acontecer à medida que a frota se renove gradualmente: para ele, a eletrificação virá principalmente pela substituição natural dos veículos, e não por uma troca imposta.
Combustíveis alternativos, biocombustíveis e hidrogênio na transição energética
O painel também tratou os combustíveis alternativos como parte de uma estratégia mais ampla - incluindo combustíveis sintéticos, biocombustíveis e hidrogênio. João Reis, da PCBC, resumiu a visão com uma frase direta: “os combustíveis fósseis vão acabar; os combustíveis, não”. Na leitura dele, opções de baixo carbono serão decisivas para estender, de forma mais sustentável, a vida útil das frotas que continuarão em circulação por muitos anos.
Um ponto que ganhou relevância foi a necessidade de olhar para a transição com pragmatismo: reduzir emissões não depende apenas do tipo de motor, mas também de como energia e combustíveis são produzidos, distribuídos e consumidos. Nesse sentido, combinar tecnologias pode ser uma forma de acelerar ganhos ambientais sem esperar, necessariamente, a troca total da frota no curto prazo.
Adoção na União Europeia: metas, barreiras e ritmo abaixo do previsto
Apesar do discurso forte em torno da eletrificação, o ritmo real de adoção foi considerado inferior ao esperado. Hoje, apenas 1,8% da frota circulante da União Europeia (UE) é totalmente elétrica, mesmo com a meta da Comissão Europeia de que, em 2035, todos os automóveis novos vendidos no bloco sejam 100% elétricos.
Entre os obstáculos citados, apareceram temas recorrentes: falta de transparência no custo total (incluindo depreciação e manutenção), preço de compra elevado, dúvidas e preocupações ligadas às baterias e a ausência de um programa de renovação de frota (sucateamento) mais eficiente, capaz de retirar veículos antigos de circulação e acelerar a substituição.
Além disso, a infraestrutura acaba influenciando diretamente a confiança do consumidor e das empresas. A expansão de redes de recarga, a padronização de soluções e a capacidade do sistema elétrico de suportar novas demandas são fatores que podem determinar se a eletrificação vai avançar com fluidez ou esbarrar em limitações práticas no dia a dia.
Mobilidade compartilhada
A mobilidade compartilhada dividiu opiniões. João Reis foi incisivo ao dizer que “a mobilidade compartilhada automotiva não existe”, atribuindo isso a falhas de modelo de negócio e a uma demanda aquém do necessário para sustentar operações no longo prazo.
Já Susana Castelo, diretora-executiva da TIS, apontou um vetor diferente: a maturidade digital das gerações mais novas, somada ao impacto do teletrabalho, pode criar espaço para modelos alternativos de acesso ao carro - especialmente em contextos nos quais o uso do veículo deixa de ser diário e passa a ser mais pontual.
Competitividade europeia e dependência de cadeias externas
No fechamento, o debate trouxe um alerta sobre a competitividade da Europa. João Reis afirmou que “a Europa se autoflagelou”, destacando a dependência da China em baterias e em matérias-primas estratégicas - um cenário que, segundo ele, eleva riscos relevantes para a indústria e para a autonomia tecnológica do bloco.
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