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“Se isto fosse a sério acabávamos com as multas” defende Manuel Coutinho

Carro elétrico esportivo azul em uma sala de exposição moderna com iluminação branca.

Na 36ª Convenção Anual da ANECRA, Pedro Lazarino (Stellantis), Manuel Coutinho (Grupo Motorpor), Joaquim Paulo Conceição (Grupo NOV/LPM), José Pedro Neves (Grupo Renault) e Nuno Roldão (Grupo Lubrigaz) participaram de uma mesa-redonda para discutir os principais desafios ligados à sustentabilidade da indústria automotiva.

Com mediação de Guilherme Costa, fundador do Razão Automóvel, o debate girou em torno das metas de emissões da União Europeia para 2035, que apontam para o fim dos motores a combustão.

Na avaliação de Lazarino, a rota definida é dura e carrega riscos: “Fomos ambiciosos demais com a meta de 2035 e agora estamos nos deparando com a realidade”. Coutinho reforçou o descompasso entre política pública e comportamento do consumidor: “Estamos correndo atrás de algo que não nasce do mercado. Se fosse para valer mesmo, acabávamos com as multas”.

Os participantes lembraram que, no começo do ano, as montadoras ganharam mais tempo para cumprir as metas de 2025. Ainda assim, se esse objetivo já era complexo, o cenário para 2030 foi descrito como quase inviável - com um risco adicional de penalidades que podem chegar a 25 bilhões de euros.

Lazarino também fez um alerta estratégico sobre competitividade global: “Se a Europa não quiser ficar sozinha no mundo, é melhor tomar uma decisão e entender que o caminho que estamos trilhando é sem volta”.

Ritmo de eletrificação na indústria automotiva abaixo do necessário

Apesar do avanço da mobilidade elétrica, os executivos destacaram que o nível de adoção ainda está distante do exigido para a transição energética. “Em Portugal, os carros elétricos representam só 20% do mercado, claramente abaixo do necessário”, observou Lazarino.

Conceição foi na mesma linha e apontou gargalos econômicos e operacionais: “Estamos muito longe das metas. A eletrificação tem pressionado a rentabilidade e falta de tudo - de preços mais acessíveis a uma infraestrutura adequada”.

Roldão resumiu o fator decisivo para o consumidor e para a escala do mercado: custo total. “No fim, o que manda é o custo. Estamos forçando uma pseudo-descarbonização, e me parece ousado tentar mudar o mundo sozinho.” Ele ainda citou a infraestrutura de carregamento insuficiente e a autonomia das baterias como obstáculos centrais para uma adoção em massa, o que torna mais difícil convencer o público.

Neves destacou que a tributação em Portugal não acompanha a realidade do mercado e lembrou que o último incentivo efetivo de abate foi em 2010, o que cria um problema estrutural: sem renovação consistente, a frota envelhece e a redução de emissões fica mais lenta.

Plataformas multienergia e o risco de uma transição sem rede de apoio

Outro ponto levantado foi a importância das plataformas multienergia, capazes de oferecer diferentes motorizações dentro do mesmo modelo. Para Lazarino, essa flexibilidade é essencial para atravessar a transição sem romper a base produtiva: “A cadeia de valor entra em colapso sem carros a combustão”, afirmou, ao defender que a decisão da UE é singular e envolve alto risco.

Além do produto, o grupo sinalizou que a transição exige uma visão sistêmica. Não basta colocar mais carros elétricos nas ruas se a experiência de uso não acompanhar: a rede de recarga precisa crescer em cobertura, potência e confiabilidade, principalmente em viagens e fora dos grandes centros. Também entram nessa conta temas como capacidade da rede elétrica, previsibilidade de tarifas e a padronização de meios de pagamento e disponibilidade de carregadores.

Um segundo aspecto frequentemente subestimado é o ciclo de vida: para sustentar a narrativa de descarbonização, ganham peso assuntos como rastreabilidade de materiais, logística reversa e reciclagem de baterias - além de metas realistas para industrialização local de componentes e para redução de emissões na fabricação, e não apenas no escapamento.

Concorrência global e necessidade de mais realismo nas políticas de transição energética

No encerramento, os especialistas alertaram que, enquanto as montadoras europeias lidam com essas restrições, marcas chinesas com modelos elétricos já avançam e conquistam uma fatia crescente do mercado.

O recado final foi a necessidade de mais agilidade e pragmatismo nas políticas de transição energética. Lazarino sintetizou a provocação: “Queremos reduzir emissões ou vender carros elétricos só para ficar bem na foto?”

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