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As ilhas de cozinha estão fora de moda: veja o que os designers estão usando no lugar.

Casal jovem preparando legumes juntos na cozinha moderna com iluminação natural e laptop sobre a mesa.

No meio da sala, uma ilha cinza e parruda atravancava a passagem como um SUV estacionado - meio soterrada por comunicados da escola, caixas da Amazon e uma tigela triste de bananas já passando do ponto. “Ilha incrível, né?”, disse ela, e já foi virando para o cômodo ao lado. O casal ao meu lado se encarou, sem muita convicção. Tentaram visualizar um jantar com amigos ali. O que conseguiam enxergar era bagunça e gente se esgueirando para passar.

Esse tipo de cena ajuda a explicar um movimento discreto que vem ganhando força: em vários países europeus, a ilha de cozinha está, aos poucos, perdendo o brilho. Ela segue impecável em fotos bem produzidas, mas dentro de casas reais começa a parecer aquele sofá enorme que comprámos há dez anos - e que hoje só irrita. Profissionais de Londres a Lisboa percebem o mesmo padrão: cai o número de clientes perguntando “Dá para encaixar uma ilha?” e sobe o de gente questionando “Não existe outra solução?”. Existe, sim - e isso já está mudando a forma como o “coração da casa” é desenhado.

A lenta queda da ilha de cozinha monolítica

Em qualquer casa-modelo de empreendimento novo, ela ainda aparece: um bloco grande e orgulhoso no centro, com três pendentes alinhados e uma torneira brilhando. Só que, quando designers voltam para ver famílias vivendo ali um ano depois, a história costuma ser bem menos glamourosa. A superfície está tomada por Lego, notebook e compras de ontem. As banquetas foram empurradas para o canto. Ninguém fica ali, serenamente, “tomando cappuccino” como prometia o folder.

Numa terça-feira cinzenta à noite, a ilha vira o que ela é na prática: uma mesa gigante no meio do caminho. Crianças fazem órbita com mochilas, alguém grita “Sai da frente, preciso do forno!”, e o cachorro fica por baixo na esperança de cair um macarrão. A fantasia do Instagram - todo mundo alinhado em banquetas iguais, conversando enquanto você cozinha - dura uns doze minutos na manhã de Natal e depois some pelo resto do ano.

Arquitetos de interiores passaram a medir o uso real da cozinha em vez de assumir hábitos ideais. Um estúdio de Londres, por exemplo, pediu a alguns clientes que filmassem uma noite comum de semana para revisar o projeto. O resultado foi impiedoso: a ilha era o ponto oficial de “largada” de tudo (bolsas, cartas, encomendas), mas quase não concentrava preparo de comida. A circulação ficava espremida, convidados se acumulavam desconfortáveis de um lado, enquanto quem recebia ficava preso do outro. A ilha tinha virado palco - não bancada. E cada vez mais profissionais admitem, em voz baixa, que a ilha monolítica não acompanha o jeito como se vive em 2025.

O que está substituindo a ilha de cozinha: mais leve, mais solto, mais humano

A mudança mais repetida no discurso dos designers é a passagem do “bloco” para o “fluxo”. Em vez de uma ilha enorme plantada no meio, entram em cena penínsulas mais finas, mesas soltas com pés, ou até duas áreas de trabalho encostadas na parede. A lógica é direta: devolver área livre e permitir que as pessoas circulem sem coreografia. Uma península pequena saindo de uma bancada linear consegue “delimitar” a cozinha sem cortar o ambiente ao meio.

Num sobrado geminado em Manchester, a designer Chloe Alston removeu uma ilha volumosa de 2,4 metros que o corretor vendia como “item dos sonhos”. No lugar, instalou uma mesa estreita de preparo com rodízios e estendeu a linha principal de armários pela parede. De repente, abriu-se espaço para as crianças atravessarem correndo, a mesa de jantar ganhou mobilidade para receber amigos, e as visitas passaram a ficar no mesmo território de quem cozinha - em vez de presas do outro lado de um paredão. “A gente não perdeu armazenamento”, disseram os proprietários. “A gente perdeu o engarrafamento.”

Por trás desse ajuste existe uma pequena rebelião contra cozinhas pensadas como “cena pronta”. Ambientes integrados hoje abrigam chamada no Zoom, lição de casa, tapete de yoga e conversas de fim de noite. Uma ilha pesada congela a planta num único arranjo. Já bancadas mais finas, blocos de açougueiro e linhas generosas na parede mantêm tudo aberto e adaptável. Muitos profissionais descrevem o objetivo como criar “paisagens de cozinha” - e não monumentos. Sai a ideia do objeto heroico; entra a soma de superfícies que suportam momentos diferentes: picar, conversar, servir vinho, responder e-mail com o notebook aberto. A ilha deixa de ser a estrela e passa a ser parte do elenco.

Também há um fator prático que vem pesando mais (inclusive no Brasil, onde reformas costumam exigir decisões certeiras): ilha com pia, cooktop e tomadas embutidas quase sempre pede obra de elétrica e hidráulica, além de soluções para exaustão. Quanto mais “tecnológica” a ilha, maior o custo e o risco de arrependimento. Alternativas mais leves - como uma península com pontos já próximos da parede ou uma mesa de preparo - entregam funcionalidade com menos infraestrutura escondida e menos dependência de quebradeira.

Novos protagonistas: balcões sociáveis, mesas de trabalho e zonas híbridas

Para quem está a planear uma reforma, uma solução que vem forte é a mesa do chef: uma mesa robusta, de madeira de verdade, posicionada perto da área de cocção - alta o suficiente para preparar alimentos e baixa o bastante para funcionar como ponto de refeição. Diferente de uma ilha fixa, ela pode mudar de lugar, acompanhar fases da vida e não obriga você a enfiar um emaranhado de tomadas e tubulações no miolo do ambiente.

Outro conceito querido pelos designers é o “plano quebrado” (broken-plan). No lugar de um bloco dominante, usa-se uma península esguia para organizar fogão e pia, e adiciona-se uma mesa redonda por perto para comer e apoiar laptops. A cozinha continua eficiente, mas as pessoas circulam, puxam mais uma cadeira, improvisam uma noite de jogos - sem a sensação de que tudo precisa acontecer na mesma placa de pedra. Em cozinhas menores no Reino Unido, um tampo extra-profundo em uma das paredes vem substituindo a ilha por completo, criando uma faixa generosa de preparo com espaço para um cantinho do café numa das pontas.

Existe, sim, uma curva de aprendizagem. Muita gente ainda associa “armazenamento” a móveis mais gordos. Só que os bons projetos estão a ficar mais altos e mais enxutos: armários piso-teto para o que é sem graça e volumoso, gavetas rasas bem onde se corta e tempera, e peças mais leves no centro do ambiente. Um arquiteto londrino resumiu sem rodeios:

“Você não precisa de uma ilha; precisa de decisões melhores por metro quadrado.”

Para não se perder, muitos escritórios compartilham uma checklist simples com os clientes:

  • Dá para duas pessoas passarem uma pela outra sem precisar virar de lado?
  • Onde bolsas, cartas e encomendas vão cair no segundo em que você entra?
  • Existe pelo menos uma superfície que consiga ficar livre na maior parte do tempo?

E vale acrescentar um ponto que aparece cada vez mais em briefings (especialmente em casas com crianças pequenas ou familiares idosos): ergonomia e acessibilidade. Uma “massa” no centro pode criar quinas, estrangular caminhos e obrigar desvios com panela quente na mão. Peças móveis, cantos arredondados e alturas variadas tendem a deixar a cozinha mais segura e mais inclusiva - sem perder beleza.

A mudança emocional: de peça de vitrine a centro vivido

Debaixo das plantas e medidas, está acontecendo algo mais profundo. Na última década, a ilha de cozinha foi vendida como símbolo de status: bancada grande, casa grande, vida grande. No pós-pandemia, a vontade é outra. As pessoas estão procurando acolhimento, não performance. Querem um lugar para sovar massa com uma criança numa terça-feira - e não apenas um cenário que valorize anúncio de imóvel.

Psicólogos do design falam em “linhas de contato visual” dentro da cozinha. A ilha pode aprisionar quem cozinha, virado para um lado com as costas para metade do ambiente. Ao deslocar o assento para uma mesa lateral ou encaixar um banco junto à parede, o anfitrião consegue virar, encostar, sentar e participar da conversa - sem ficar atrás de uma barricada de quartzo. Num dia difícil de semana, essa pequena diferença pesa muito mais do que ter uma segunda adega climatizada escondida na base da ilha.

Numa obra em Bristol, os proprietários pediram explicitamente: “menos ilha, mais estar junto”. A designer trocou o bloco previsto por uma mesa longa de carvalho, com acabamento gasto, capaz de aguentar rabiscos de lição e marcas de taça sem pânico. Ela colocou uma bancada compacta de preparo ao lado do fogão e deixou o centro do cômodo quase vazio. Agora os amigos entram, largam uma garrafa na mesa, puxam a cadeira que estiver livre. Não fica tão “perfeito” quanto a foto clássica da ilha. Fica melhor: parece um lugar onde a vida realmente acontece.

Um designer sintetizou o clima com uma confissão inesperada:

“Eu desenhava ilhas no automático. Hoje, eu preciso ser convencido de que elas estão a merecer o espaço.”

A questão não é demonizar ilhas. É fazer perguntas mais duras. Esse bloco grande ajuda a conversa - ou corta o papo em dois? Facilita cozinhar - ou transforma você num solista num palco de bancada? E, discretamente, muita gente percebe que trocaria alguns metros quadrados brilhantes de quartzo por uma cozinha que respira.

Todo mundo já viveu aquela cena de festa em que as pessoas ficam encostadas, segurando o copo, tentando não bloquear gavetas e portas de armário. A próxima onda do design de cozinhas tenta resolver exatamente isso: mais curvas, mais peças deslocáveis, mais alturas combinadas - onde criança alcança o cereal e adulto pica sem ficar curvado. Sejamos honestos: ninguém faz aquilo todos os dias. A fantasia de seis amigos alinhados em banquetas assistindo você flambar algo complexo é simpática, mas na maioria das noites você só quer um lugar para largar a bolsa, abrir a geladeira e conversar com quem você ama sem desviar de um trambolho no meio do caminho.

Ponto-chave Detalhe Benefício para o leitor
Fim da ilha monolítica Ilhas grandes atrapalham a circulação e viram sobretudo um ponto de “descarrego” Ajuda a questionar um reflexo de planta que muitas vezes não combina com a vida real
Novas alternativas Penínsulas finas, mesas do chef, bancadas de parede extra-profundas e móveis móveis Entrega caminhos práticos para repensar uma cozinha existente ou um projeto novo
Abordagem centrada no uso real Menos “peça de vitrine”, mais convivência, flexibilidade e espaços vazios Facilita criar uma cozinha em que se vive e se conversa de verdade - e não só um ambiente para mostrar

Perguntas frequentes (FAQ)

  • Ainda faz sentido ter uma ilha de cozinha em alguns casos? Sim. Em ambientes grandes, com circulação folgada em todos os lados e um plano claro de uso diário, a ilha pode funcionar muito bem.
  • O que colocar no lugar da ilha numa cozinha pequena? Uma península estreita, uma mesa de preparo solta (com pés ou rodízios) ou uma bancada mais profunda em uma das paredes costuma render mais e apertar menos.
  • Tirar a ilha pode diminuir o valor do imóvel? Cada vez mais compradores procuram layout funcional, e não “cenários prontos”; uma cozinha mais aberta e prática pode ser tão atrativa quanto para o mercado.
  • Quanto espaço é realmente necessário ao redor de uma ilha? Em geral, designers procuram manter 1 a 1,2 m de passagem livre em todos os lados; abaixo disso, a circulação fica rapidamente desconfortável.
  • Dá para transformar uma ilha existente em algo mais útil? Dá para deixá-la visualmente mais leve com prateleiras abertas, adicionar rodízios (se a estrutura permitir) ou até substituí-la por uma mesa grande que sirva tanto para preparo quanto para refeições.

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