Uma investigação inicial identificou que pessoas que combinam tabaco com cannabis apresentam alterações específicas na química cerebral - diferentes das observadas em quem usa apenas uma das substâncias. Esses achados podem ajudar a entender por que o uso concomitante costuma estar associado a dependência mais intensa e a piores desfechos de saúde mental.
Evidências recentes e por que isso importa para saúde mental
Em 2024, por exemplo, um estudo apontou que jovens nos Estados Unidos que usam tabaco e cannabis relataram problemas de saúde mental com mais frequência do que aqueles que usavam somente cannabis ou apenas fumavam tabaco.
Apesar de o estudo atual ser pequeno e ainda preliminar, os resultados chamaram a atenção dos investigadores, que agora pretendem ampliar os testes, incluindo mais pessoas que fumam e que vaporizam (usam dispositivos eletrónicos) produtos de tabaco.
O que as imagens do cérebro compararam (cannabis vs. tabaco e cannabis)
A equipa analisou exames cerebrais de dois grupos: - 8 participantes que relataram usar apenas cannabis; - 5 participantes que relataram usar tabaco e cannabis.
O grupo que combinava as duas substâncias apresentou níveis significativamente mais elevados de uma enzima-chave em múltiplas regiões do cérebro.
Enzima FAAH, sistema endocanabinoide e o “equilíbrio” do prazer
A enzima identificada chama-se hidrolase de amida de ácido gordo (FAAH). Ela interage com o sistema endocanabinoide, regulando de perto os níveis de um neurotransmissor associado a sensações de bem-estar, prazer e alegria.
Estudos recentes em animais indicam que a FAAH pode participar dos circuitos de recompensa da nicotina no cérebro, mas ainda não está claro se o mesmo acontece em humanos. Além disso, pessoas com determinadas variantes do gene FAAH parecem ter maior risco de abuso de drogas e dependência, e o gene também já foi associado a ansiedade.
“Esta é a primeira evidência em humanos de um mecanismo molecular que pode estar por trás do motivo de pessoas que usam cannabis e tabaco apresentarem piores desfechos”, afirma a autora principal, a investigadora em psicologia Rachel Rabin, da Universidade McGill, no Canadá.
Limitações do estudo e as perguntas que ainda precisam de resposta
O trabalho não incluiu um grupo composto por pessoas que fumam apenas cigarros. Por isso, é possível que o tabaco sozinho seja o responsável por parte dessas mudanças no cérebro.
São necessários estudos adicionais para esclarecer: - se esse perfil químico é diretamente provocado pelo tabaco; - se a cannabis agrava (intensifica) esse perfil; - se isso pode colocar a saúde mental em maior risco.
Ainda assim, a associação observada é considerada relevante.
“O que nos surpreendeu foi a força do efeito e o quanto ele foi diferente entre quem usava só cannabis e quem usava tabaco e cannabis”, diz a coautora, a psiquiatra Romina Mizrahi, também da Universidade McGill.
Desafio central na pesquisa: separar quem usa só cannabis de quem mistura com tabaco
Um dos principais obstáculos na investigação sobre cannabis é distinguir claramente quem: - fuma cannabis sem tabaco, e - quem fuma cannabis e tabaco em conjunto - uma combinação comum tanto entre utilizadores recreativos quanto entre utilizadores medicinais.
Algumas estimativas sugerem que até 80% das pessoas que usam cannabis também usam produtos de tabaco. Essa sobreposição pode estar a influenciar resultados de estudos sobre doenças pulmonares, saúde mental, função cerebral e cognição relacionados à cannabis.
Quase todos os estudos disponíveis sobre o tema são observacionais, o que significa que não permitem concluir com segurança o que é causa e o que é efeito. Para complicar, muitas pesquisas não diferenciam bem quantidade, frequência e forma de consumo de tabaco e cannabis - fatores que podem alterar substancialmente os resultados.
Implicações para prevenção e tratamento do uso de tabaco e cannabis
Se tabaco e cannabis juntos de facto provocarem um impacto distinto daquele observado com a cannabis isolada, isso tem consequências práticas: programas de prevenção, triagem clínica e estratégias de redução de danos podem precisar considerar explicitamente o uso combinado, e não tratar o consumo como dois comportamentos independentes.
Outra implicação é a necessidade de acompanhar sintomas de ansiedade, humor e padrões de dependência de forma mais cuidadosa em quem mistura as substâncias, sobretudo porque a regulação do sistema endocanabinoide pode influenciar tanto a experiência de prazer quanto a vulnerabilidade a recaídas.
Próximos passos: um alvo biológico para futuras medicações
Por enquanto, a hipótese de que tabaco e cannabis juntos gerem efeitos diferentes dos da cannabis isolada é plausível - mas a confirmação depende de estudos maiores e mais controlados.
“Identificar esse mecanismo é um passo importante para encontrar alvos para futuras medicações no tratamento do transtorno por uso de cannabis, especialmente entre pessoas que também usam tabaco”, afirma Rabin.
O estudo foi publicado na revista Relatórios sobre Dependência de Drogas e Álcool.
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