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Primeira vez: tempestade monstruosa vista em outra estrela.

Pessoa jovem observando dados astronômicos em computador, com antenas parabólicas ao fundo.

Astrónomos anunciaram na quarta-feira que, pela primeira vez, conseguiram identificar uma tempestade estelar numa estrela que não é o nosso Sol - uma explosão tão extrema que, se existissem planetas por perto, ela poderia ter arrancado a atmosfera de qualquer um deles.

No Sol, tempestades solares por vezes lançam para o espaço enormes erupções chamadas ejeções de massa coronal, capazes de interferir em satélites quando chegam à Terra e, ao mesmo tempo, produzir auroras intensas e coloridas que “dançam” no céu.

Um exemplo recente veio no próprio dia do anúncio: de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), uma tempestade solar particularmente forte provocou auroras visíveis tão a sul quanto o estado do Tennessee, nos Estados Unidos.

As auroras também apareceram sobre a Nova Zelândia, como mostraram imagens da AFP, e havia expectativa de novas ocorrências ao longo da noite de quarta-feira.

Apesar de estes fenómenos serem bem conhecidos no Sistema Solar, observar uma tempestade desse tipo numa estrela distante sempre foi um desafio técnico para a astronomia.

Um estudo publicado na quarta-feira na revista científica Nature relata que uma equipa internacional conseguiu, finalmente, superar essa barreira.

LOFAR e a detecção da ejeção de massa coronal numa anã vermelha

A descoberta foi feita a partir de dados do LOFAR, uma rede europeia de radiotelescópios.

Desde 2016, o grupo vem usando o LOFAR para localizar alguns dos eventos mais extremos e violentos do Universo - como aqueles associados a buracos negros - que tendem a emitir sinais de rádio relativamente estáveis ao longo do tempo.

“Há sempre estrelas no campo de visão do telescópio, mas, em geral, não estamos interessados nelas”, explicou à AFP Cyril Tasse, astrónomo do Observatório de Paris e coautor do trabalho.

Ainda assim, os investigadores montaram um sistema de processamento que, além de acompanhar os “gigantes” que procuravam, também regista o que acontece com as estrelas que aparecem ao fundo dos dados.

Em 2022, a equipa decidiu investigar “o que tinha sido apanhado nessa rede”, segundo Tasse.

Foi aí que encontraram uma explosão colossal, com duração de apenas um minuto, ocorrida em 16 de maio de 2016. O sinal veio de uma anã vermelha chamada StKM 1-1262, situada a mais de 133 anos-luz.

Após a análise, o grupo concluiu que se tratava de uma ejeção de massa coronal - ou seja, uma tempestade estelar.

“É a primeira vez que detectamos uma [ejeção de massa coronal] numa estrela que não seja a nossa”, afirmou Tasse.

E havia um detalhe ainda mais impressionante: essa ejeção de massa coronal foi “pelo menos 10.000 vezes mais violenta do que as tempestades solares conhecidas” no Sol, acrescentou.

Destruidoras de atmosferas

O achado pode mudar o modo como se avalia a possibilidade de existência de vida em planetas fora do Sistema Solar.

As anãs vermelhas - estrelas com massa entre 10% e 50% da massa do Sol - são, até aqui, as candidatas mais frequentes a hospedar planetas aproximadamente do tamanho da Terra, segundo as evidências acumuladas sobre a população estelar do Universo.

“A primeira detecção por rádio inaugura uma nova era para o clima espacial aplicado a outros sistemas estelares”, disse Philippe Zarka, director de pesquisa no Observatório de Paris e também coautor do estudo.

“Esse campo emergente abre perspectivas importantes sobre como a actividade magnética das estrelas influencia a habitabilidade dos planetas que as rodeiam.”

Para Tasse, tudo indica que as anãs vermelhas apresentam um comportamento “muito mais errático e violento” do que o Sol.

A consequência é directa: essas estrelas podem ser bastante pouco acolhedoras quando o assunto é vida e exoplanetas, porque as tempestades que produzem podem ser tão intensas a ponto de destruir as atmosferas de mundos próximos.

Além disso, o impacto não depende apenas da existência de um planeta: factores como a distância à estrela e a presença (ou não) de um campo magnético planetário forte podem determinar se uma atmosfera resiste ou se é gradualmente erodida por eventos repetidos. Em termos práticos, isso significa que a “zona habitável” em torno de uma anã vermelha pode ser mais complexa do que a simples faixa de temperaturas onde a água líquida seria possível.

A detecção também reforça a importância de monitorizar o clima espacial para lá do nosso Sistema Solar. À medida que se descobrem mais exoplanetas em órbita de anãs vermelhas, observar tempestades estelares e ejeções de massa coronal torna-se uma peça essencial para estimar se esses mundos conseguem manter atmosferas estáveis durante milhões ou milhares de milhões de anos.

© Agence France-Presse

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