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Estudo de fóssil sugere que monstro marinho pré-histórico não vivia apenas nos oceanos.

Dinossauro e crocodilo pré-histórico na margem de rio cercado por vegetação tropical e esqueletos.

Os mossassauros foram os predadores de topo dos mares na época dos dinossauros, mas um estudo recente indica que eles também representavam uma ameaça longe da costa - inclusive em rios e áreas de planície alagável.

Mossassauros em água doce: evidências a partir de dentes e isótopos

Uma equipa de investigadores da Suécia, dos Estados Unidos e dos Países Baixos analisou assinaturas isotópicas preservadas em dentes de mossassauros recolhidos em vários pontos da Dakota do Norte. O objetivo era esclarecer um achado intrigante: um dente de mossassauro descoberto no interior do continente, num ambiente de planície de inundação, junto de um dente de Tyrannosaurus rex e de uma mandíbula de crocodiliano.

A pergunta era inevitável: o animal teria vivido naquele sistema fluvial de água doce ou o dente teria sido transportado de longe, vindo do oceano?

Pelas características do dente encontrado em ambiente interior, os autores atribuíram-no a um grupo de mossassauros que pode ter atingido cerca de 11 metros de comprimento - um tamanho comparável ao de uma orca.

Esse cenário acrescenta um novo nível de risco ao comportamento de procurar água: dinossauros sedentos, ao aproximarem-se de pontos de bebida, não precisavam apenas de vigiar ameaças em terra firme, mas também predadores gigantes capazes de emergir da água.

“O tamanho significa que o animal rivalizaria com as maiores orcas, tornando-o um predador extraordinário para encontrar em ambientes fluviais que não eram, até agora, associados a répteis marinhos tão gigantes”, afirma Per Ahlberg, paleontólogo de vertebrados da Universidade de Uppsala, na Suécia.

Quem eram os mossassauros no Cretáceo Superior?

Os mossassauros eram répteis aquáticos carnívoros que viveram no Cretáceo Superior. Embora existissem espécies menores, a maioria era formada por animais de grande porte, o que lhes permitiu dominar os oceanos antigos durante milhões de anos.

Por isso, o achado de um dente em plena planície de inundação - ao lado de fósseis típicos de ambientes continentais - soou estranho. Para resolver a dúvida, os investigadores focaram-se no esmalte do dente, que costuma preservar bem pistas químicas do ambiente em que o animal viveu.

Como a análise de isótopos revela habitat e alimentação

Elementos químicos podem existir em diferentes variantes, chamadas isótopos, que se distinguem pelo número de neutrões no átomo. Ao medir as proporções desses isótopos numa amostra, é possível inferir, com boa precisão, tanto o tipo de água e região onde o animal esteve quanto aspetos da sua dieta.

Neste caso, foram avaliadas as razões isotópicas de oxigénio, estrôncio e carbono. Em seguida, essas assinaturas foram comparadas com padrões registados noutros fósseis, incluindo dentes de tubarão e amonites.

Oxigénio e estrôncio: água doce versus água salgada

O oxigénio é especialmente útil para distinguir água doce de água salgada. O isótopo mais leve, ¹⁶O, evapora com mais facilidade do oceano e regressa sob a forma de chuva; por isso, ambientes de água doce tendem a ter mais ¹⁶O e muito menos do isótopo mais pesado, ¹⁸O, quando comparados com a água do mar.

De acordo com o estudo, a combinação das assinaturas isotópicas de oxigénio e de estrôncio no dente de mossassauro indicou que o animal estava totalmente adaptado a um ambiente de água doce - não parecia tratar-se de um fragmento “perdido” vindo do oceano.

Melanie During, paleontóloga de vertebrados da Universidade de Uppsala, acrescenta que o padrão se repetiu noutros materiais:

“Quando analisámos mais dois dentes de mossassauro encontrados em locais próximos na Dakota do Norte, um pouco mais antigos, observámos assinaturas de água doce semelhantes.”

Segundo ela, o conjunto de resultados aponta para uma conclusão temporal clara:

“Estas análises mostram que os mossassauros viveram em ambientes fluviais no último milhão de anos antes de se extinguirem.”

Carbono: um predador que podia alimentar-se de dinossauros

A história não termina no “onde”. A razão isotópica do carbono trouxe um detalhe ainda mais inquietante sobre “o que” este animal comia.

“Isótopos de carbono nos dentes, em geral, refletem aquilo de que o animal se alimentava”, explica During.

Em muitos mossassauros, valores baixos de ¹³C são associados a hábitos de mergulho em maiores profundidades. No entanto, o dente encontrado junto ao de T. rex apresentou um valor de ¹³C mais elevado do que o registado em todos os mossassauros, dinossauros e crocodilianos conhecidos, o que sugere que esse indivíduo não mergulhava fundo e que, por vezes, pode ter consumido dinossauros que se afogaram.

O que isso sugere sobre a adaptação final dos mossassauros

Os autores propõem que a transição de ambientes marinhos para água doce possa ter sido uma adaptação tardia, ocorrida durante o último milhão de anos antes do evento de extinção que eliminou tanto os mossassauros quanto os dinossauros não aviários.

Uma implicação importante é fisiológica: para permanecer em água doce de forma consistente, um grande réptil marinho precisaria lidar com desafios de equilíbrio de sais e hidratação (osmorregulação). Se a hipótese estiver correta, alguns grupos de mossassauros podem ter desenvolvido tolerâncias mais amplas ao longo do tempo, permitindo-lhes explorar rios e estuários como novos territórios de caça.

Outra consequência é ecológica. A presença de um predador desse porte em sistemas fluviais altera a forma como interpretamos cadeias alimentares continentais no fim do Cretáceo: carcaças levadas pela corrente, animais debilitados e indivíduos que atravessavam rios poderiam tornar-se oportunidades alimentares regulares, conectando ecossistemas terrestres e aquáticos de maneira mais intensa do que se supunha.

A pesquisa foi publicada na revista BMC Zoologia.

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