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NASA anuncia grande mudança nos planos de levar humanos à Lua.

Homem observa a lua cheia da janela de um escritório com mapas e modelos espaciais em uma mesa.

Enquanto aguardamos a histórica missão Artemis II - que terá a bordo o astronauta canadense Jeremy Hansen - a NASA anunciou mudanças importantes no programa Artemis.

A principal alteração é no cronograma das próximas etapas: a Artemis III deixará de levar pessoas para pousar na superfície da Lua e passará a realizar uma sequência de testes tecnológicos em órbita baixa da Terra. Já a Artemis IV deverá se tornar o primeiro pouso humano na Lua dentro do programa, com previsão para 2028.

Sou professor, explorador e geólogo planetário. Integro a Equipe de Ciência da Artemis III e venho apoiando a NASA no desenvolvimento de treinamentos de geologia voltados aos astronautas do Artemis.

Minha pesquisa se concentra na análise de amostras trazidas pelas missões Apollo e de meteoritos lunares, para aprimorar o entendimento sobre a geologia da Lua.

Por que a NASA mudou o plano do programa Artemis?

Embora o anúncio recente da NASA não altere diretamente a Artemis II, os atrasos acumulados nessa missão ajudam a ilustrar problemas que vêm atingindo o programa Artemis há anos.

Depois de um primeiro revés causado por um vazamento de hidrogénio líquido identificado durante um ensaio geral de abastecimento e contagem regressiva em 3 de fevereiro, novos contratempos apareceram no segundo ensaio, realizado entre 19 e 20 de fevereiro. Com isso, a data mais cedo para lançamento passou a ser 1º de abril.

Se esse calendário se confirmar, teremos um intervalo superior a três anos desde a primeira missão Artemis. Pausas tão longas entre voos reduzem a capacidade de ajustar sistemas com rapidez e acabam permitindo que problemas semelhantes - como vazamentos de combustível - reapareçam.

Além disso, com a saída de mais de 4.000 funcionários em 2025 - cerca de 20% da força de trabalho - a NASA enfrenta um desafio significativo de pessoal, o que aumenta ainda mais a pressão sobre o programa Artemis.

Essas dificuldades parecem ter sido reconhecidas pelo novo administrador da NASA, Jared Isaacman, que escreveu numa publicação recente em redes sociais que “acabaram os tempos de a NASA lançar foguetões para a Lua a cada 3 anos”.

Um componente central do novo rumo é padronizar o estágio superior do foguetão Sistema de Lançamento Espacial (SLS) - a parte do veículo responsável por impulsionar a nave a partir da órbita baixa da Terra na direção da Lua.

Programa Artemis renovado: o que muda na Artemis III e por quê

Desde o anúncio, circularam muitas notícias descrevendo a reorganização do programa Artemis, e várias delas chamaram a Artemis III de “cancelada”.

Essa leitura não é justa nem precisa em relação ao plano atualizado. Muita gente - eu incluído - considera que a nova proposta é, ao mesmo tempo, mais realista e muito interessante.

É verdade que a Artemis III não será mais o primeiro pouso humano na Lua desde a Apollo 17, em 1972. Em vez disso, a missão deverá colocar a cápsula tripulada Órion em órbita baixa da Terra com astronautas a bordo, onde serão feitos testes em voo de tecnologias críticas, incluindo suporte de vida, propulsão e sistemas de comunicações.

Ainda em órbita, espera-se que a Órion realize encontro orbital e acoplagem com um, ou até com os dois, módulos de pouso lunar desenvolvidos comercialmente pelas empresas SpaceX e Blue Origin. Isso é coerente, porque o plano original do Artemis pretendia ir diretamente da Artemis II para a superfície sem validar, em missão tripulada, esses elementos essenciais.

A tripulação também pode avaliar os novos trajes espaciais projetados pela Axiom Space, o que é relevante porque esses fatos ainda não foram usados numa missão espacial real.

Na prática, esse redesenho tende a diminuir riscos e a aumentar a probabilidade de sucesso do primeiro pouso humano do programa em 2028 - agora atribuído à Artemis IV, e não à Artemis III.

O ponto mais surpreendente - e empolgante - do anúncio foi a intenção de a NASA buscar não apenas um, mas dois pousos na Lua em 2028, e depois realizar uma missão por ano. De repente, o ritmo fica bem mais próximo do programa Apollo, que lançou 11 missões tripuladas em quatro anos.

Um efeito colateral positivo dessa nova sequência é a oportunidade de amadurecer, com mais calma e com dados operacionais, rotinas de treino e procedimentos de emergência. No caso da geologia de campo, por exemplo, a preparação de astronautas depende tanto de técnicas de amostragem quanto de decisões rápidas no terreno - e missões com validações progressivas podem melhorar muito esse tipo de prontidão.

Também vale lembrar que, para além do foguetão e das naves, um pouso lunar bem-sucedido depende de uma integração fina entre múltiplos parceiros industriais e equipas científicas. Ensaios em órbita baixa da Terra ajudam a revelar incompatibilidades cedo, quando ainda é mais fácil e barato corrigir.

E a estação Lunar Gateway?

Um elemento chamou atenção pela ausência no anúncio: a Lunar Gateway. Trata-se da pequena estação espacial que deve orbitar a Lua como parte do programa Artemis.

Nos planos originais, o segundo pouso lunar - a Artemis IV - deveria chegar à superfície passando pela Lunar Gateway.

A Lunar Gateway é especialmente importante para o Canadá porque será o lar do Canadarm3. Como o nome sugere, o Canadarm3 é o braço robótico de nova geração do país e representa uma contribuição de 2 mil milhões de dólares para o programa Artemis.

Ele dá continuidade ao legado de robótica do Canadá com o Canadarm e o Canadarm2, mas é muito mais avançado e incorpora inteligência artificial - algo necessário por causa da distância de operação em relação à Terra.

À medida que a NASA define o desenho das missões de pouso lunar seguintes, espero - pelo bem do programa espacial canadense - que a Lunar Gateway, com o seu Canadarm3, continue fazendo parte do plano.

Gordon Osinski, Professor de Ciências da Terra e Planetárias, Western University

Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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