Uma vasta laje de rocha antiga, exposta nas altitudes do Parque Nacional de Torotoro, na Bolívia, foi identificada como o maior sítio de pistas de dinossauros documentado até hoje.
Na encosta oriental dos Andes, paleontólogos inventariaram o célebre sítio de Carreras Pampa e contabilizaram quase 18.000 pegadas individuais. Essas marcas foram deixadas por animais que corriam, caminhavam sem pressa e até nadavam há cerca de 70 milhões de anos - no fim da era dos dinossauros, pouco antes da extinção em massa que levou ao seu desaparecimento.
Carreras Pampa: números recordistas de pistas de dinossauros e pegadas de natação
O levantamento revelou um conjunto impressionante de vestígios atribuídos a terópodes, grupo que reúne todos os dinossauros carnívoros conhecidos e também as aves modernas. Os registos incluem:
- 16.600 pegadas tridáctilas (de três dedos), distribuídas por 1.321 trilhas e 289 impressões isoladas;
- 1.378 pegadas de natação, organizadas em 280 trilhas.
O resultado é um sítio extraordinário - e ainda mais notável por ter sido preservado graças a uma combinação ambiental muito particular.
Um conjunto raro de condições que “congelou” o comportamento no lodo
Segundo uma equipa conjunta Estados Unidos–Bolívia, liderada pelo paleontólogo Raúl Esperante, do Geoscience Research Institute (EUA), o local reúne um acervo singular: ictnitas (pistas fossilizadas) de dinossauros e de aves, pegadas de natação de terópodes, marcas de cauda e diferentes galerias escavadas por invertebrados.
A cada segundo, animais terrestres deixam sinais na superfície do planeta. Quase sempre, essas marcas desaparecem rapidamente. Em situações raras, porém, o ambiente oferece exatamente o que é necessário para transformar impressões passageiras em registos duradouros.
No passado, Carreras Pampa foi a margem de um lago raso de água doce. O lago já não existe, mas o cenário de então era ideal para guardar pegadas num lodo macio, encharcado e rico em carbonatos. A enorme quantidade de marcas sugere que a área funcionava como um recurso importante para a fauna que vivia nas proximidades.
A “receita” sedimentar que favoreceu a fossilização das pegadas
Os investigadores explicaram que a camada onde as pistas ficaram preservadas tinha propriedades excecionais. A composição era dominada por grãos ovais de carbonato de cálcio - sobretudo conchas de ostracodes encaixadas e ooides -, enquanto os 35% restantes eram silicatos de granulação fina.
Esse material criava uma superfície que, quando húmida mas não submersa, era suficientemente macia para receber uma impressão profunda ao ser pisada e, ao mesmo tempo, firme o bastante para manter a forma por tempo suficiente até ser coberta por sedimentos e iniciar o processo de fossilização.
Além disso, as marcas não foram apagadas por sucessivas passagens sobrepostas. Foi uma combinação rara - uma “tempestade perfeita” - que manteve diferentes tipos de pegadas e rastos intactos ao longo de eras geológicas.
Não são apenas pegadas: garras, caudas e rastos de natação
Quando se fala em “pistas de dinossauros”, é natural imaginar apenas pegadas bem desenhadas. Em Carreras Pampa, porém, também ficaram gravados sinais de garras e pequenas perfurações, traços de cauda e arranhões feitos por pés que apenas roçavam o fundo do lago enquanto o animal se deslocava a nado.
As pegadas variam bastante de tamanho: há exemplares com mais de 30 cm de comprimento e outros muito pequenos, com menos de 10 cm. A orientação das trilhas concentra-se em duas direções principais, o que aponta para um padrão de ida e volta ao longo da margem.
A maior parte das impressões corresponde a pés de terópodes com 16 a 29 cm, sugerindo dinossauros de porte pequeno a médio, que no máximo atingiriam uma altura comparável à de um adulto humano.
Os autores distinguiram 11 tipos diferentes de pistas. Em alguns trechos, foi possível reconhecer até curvas bruscas, indicando mudanças rápidas de direção enquanto os animais corriam perto da água.
Os registos com marcas de cauda são descritos como frequentes e muito bem preservados, aparecendo em trilhas com impressões rasas, profundas e muito profundas. Para a equipa, esses traços indicam um tipo de comportamento locomotor associado ao afundamento em substrato mole, levando a cauda a tocar a superfície.
Por que o sítio é tão importante para a ciência (e para a conservação)
Os investigadores afirmam que Carreras Pampa passa a integrar o grupo dos locais mais relevantes do mundo para o estudo de pegadas fósseis: reúne o maior número registado de pistas de terópodes, o maior número de pegadas de natação e uma diversidade de tipos de preservação que ajuda a inferir como esses animais se comportavam - uma janela rara para um ecossistema outrora vibrante.
Além do valor académico, sítios como este reforçam a necessidade de proteção geológica e gestão de visitação. A exposição natural, a erosão e o pisoteio podem degradar superfícies com marcas delicadas; por isso, o equilíbrio entre pesquisa, educação e turismo é essencial para manter o património intacto a longo prazo.
Também vale notar que a documentação moderna de trilhas extensas tende a beneficiar-se de técnicas como mapeamento detalhado e registo digital (por exemplo, modelos tridimensionais), que ajudam a comparar padrões, a preservar informação e a reduzir intervenções diretas na rocha - um complemento importante às medições tradicionais em campo.
Um caso de Lagerstätten: concentração e conservação de vestígios
Pelos autores, a combinação de abundância e preservação excecional justifica que o sítio seja enquadrado entre os locais mais extraordinários conhecidos como Lagerstätten.
Eles descrevem Carreras Pampa como uma Lagerstätte ictnológica de concentração e conservação, destacando três aspetos: a qualidade de preservação, a quantidade invulgarmente alta de pistas e a variedade de comportamentos registados - fatores que colocam o local entre os principais sítios de pegadas de dinossauros do planeta.
O estudo foi publicado na revista PLOS ONE.
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