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Estromatólitos vivos são descobertos em área remota e protegida do Patrimônio Mundial

Mulher coleta amostras em piscinas naturais na costa rochosa sob luz do sol na manhã clara.

Uma área isolada e sob proteção de Patrimônio Mundial revelou ser o lar de estromatólitos vivos - a evidência mais antiga conhecida de formas de vida na Terra.

A descoberta aconteceu em montículos de nascentes de água doce situados em áreas úmidas cársticas de uma região selvagem na Tasmânia, Austrália. Nesse tipo de ambiente, os solos são turfosos (ricos em matéria orgânica) e repousam sobre rocha carbonática, como calcário; a água, por sua vez, vai dissolvendo o substrato e abrindo caminho para sistemas de cavernas.

Por que os estromatólitos são tão importantes para a história da Terra

Quando o objetivo é encontrar os fósseis mais antigos e reconhecíveis do planeta, os estromatólitos são a principal pista. Paleontólogos já registraram fósseis desse tipo com cerca de 3,7 bilhões de anos, datados de um período em que os primeiros organismos unicelulares surgiam durante o Éon Arqueano.

A aparência dos estromatólitos varia bastante, mas eles geralmente se manifestam como estruturas rochosas. Eles se originam pela atividade de microrganismos unicelulares fotossintetizantes, como as Cyanobacteria (cianobactérias), que em conjunto formam uma camada conhecida como biofilme.

Esse biofilme é composto por filamentos de organismos unicelulares, lembrando uma espécie de “manta” compacta. Ele captura sedimentos e minerais presentes na água e os fixa no lugar, construindo o estromatólito camada por camada, num processo lento e cumulativo.

Por isso, os estromatólitos funcionam como uma ferramenta valiosa para investigar a história geológica da Terra.

Onde ainda existem estromatólitos vivos - e o que muda na Tasmânia

Hoje, há poucos locais no mundo em que se encontram estromatólitos vivos. Em geral, eles persistem em ambientes hipersalinos, porque o excesso de sal dificulta a vida de animais que poderiam “pastar” sobre essas estruturas. Ainda assim, também existem algumas colônias em água doce, como na Laguna Bacalar (México) e no Salda Gölü (sul da Turquia).

O achado recente é especial por marcar a primeira vez em que estromatólitos vivos foram identificados na Tasmânia, dentro de uma bacia hidrográfica que integra a Área do Patrimônio Mundial da Região Selvagem da Tasmânia, listada pela UNESCO.

Segundo a autora principal, Bernadette Proemse, geoquímica da Universidade da Tasmânia, a descoberta expõe “um ecossistema único e inesperado” em um vale remoto no sudoeste do estado.

Ela explicou que o ecossistema se estruturou ao redor de montículos de nascentes, onde a água subterrânea rica em minerais é forçada a aflorar devido a estruturas geológicas presentes em rochas calcárias subjacentes. O resultado foi ainda mais intrigante quando análises detalhadas mostraram que esses montículos eram, em parte, construídos por estromatólitos vivos.

Estromatólitos (Tasmânia): comunidade microbiana incomum

De acordo com o estudo, a comunidade bacteriana encontrada ali tem uma composição singular, reunindo Cyanobacteria, Alphaproteobacteria e uma proporção incomumente alta de Chloroflexi, seguidas por Armatimonadetes e Planctomycetes.

Estrutura em camadas e assinatura química

Esses estromatólitos também se destacam pela forma: eles se elevam alguns centímetros acima da superfície da água, o que levou a equipe a sugerir que se trata de uma variante mais “terrestre”.

Um corte transversal da estrutura mostra a alternância de camadas claras e escuras, cada uma com aproximadamente 1 milímetro de espessura. A espectroscopia confirmou que o material é composto por carbonato de cálcio.

Legenda da imagem: Estromatólitos no local (à esquerda) e as camadas de calcita (à direita). (Proemse et al./Relatórios Científicos)

As características químicas da água ajudam a explicar isso: trata-se de um ambiente levemente alcalino, dominado por bicarbonato de cálcio, o que é compatível com a formação de depósitos carbonáticos.

Por que eles conseguem prosperar ali

Assim como acontece em ambientes hipersalinos, águas alcalinas também tendem a ser hostis para muitos outros organismos - e essa pode ser uma das razões pelas quais os estromatólitos conseguem se desenvolver. Os pesquisadores observaram que os montículos estavam cobertos por conchas de caramujos de água doce mortos.

“Isso é ótimo para os estromatólitos, porque significa que existem pouquíssimos caramujos vivos para comê-los”, afirmou Proemse. Ela acrescentou que, por sorte, esses “fósseis vivos” da Tasmânia contam com a proteção do status de Patrimônio Mundial e com uma barreira adicional: a enorme dificuldade de acesso aos montículos de nascentes.

Próximos passos da pesquisa

Agora, serão necessários estudos adicionais para verificar se também existem estromatólitos em outros pontos da Área do Patrimônio Mundial.

A pesquisa foi publicada no periódico Relatórios Científicos.

Conservação e cuidados em um ecossistema delicado

Mesmo com proteção formal, ambientes de nascentes e áreas úmidas cársticas podem ser sensíveis a mudanças na qualidade da água, pisoteio, introdução de espécies e alterações no regime hidrológico. Um passo importante é definir protocolos de monitoramento que acompanhem a química da água (alcalinidade, carbonatos) e a integridade física dos montículos ao longo do tempo.

Além disso, por se tratar de um ambiente remoto, a gestão precisa equilibrar pesquisa e preservação: amostragens devem ser mínimas e bem justificadas, e qualquer visita técnica deve priorizar rotas e práticas que reduzam impactos sobre o solo turfoso e sobre as próprias estruturas estromatolíticas.

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