Pular para o conteúdo

A Airbus evitou o pior neste fim de semana com um bug que afetou metade de sua frota de A320.

Dois pilotos com fones no cockpit de avião, analisando os controles e telas diante deles.

O que poderia ter escalado para um problema global acabou controlado a tempo. Em questão de um fim de semana, a Airbus precisou colocar em solo, de forma preventiva e urgente, uma parcela enorme da frota de A320 por causa de um erro de software sensível a radiações solares - um cenário que, no pior caso, poderia ter levado a consequências graves.

O alerta ganhou força no fim de outubro, nos Estados Unidos. Um Airbus A320 da JetBlue, voando em altitude de cruzeiro sobre o Golfo do México, teve uma queda repentina de várias dezenas de metros sem qualquer ação dos pilotos. Embora o avião tenha voltado a estabilizar-se em seguida, o episódio foi considerado sério o suficiente para justificar uma investigação detalhada.

Após análises técnicas minuciosas, especialistas atribuíram a anomalia à versão mais recente do software ELAC, o computador de controlo de voo responsável por comandar ailerons e profundor. O sistema foi concebido pela Thales e programado pela própria Airbus, mas mostrou-se vulnerável quando exposto a certos picos de radiação solar particularmente intensos.

Mesmo avaliando o risco como baixo, a Airbus optou por agir de forma rápida, já que o problema podia incluir indicação incorreta de altitude no cockpit ou respostas espúrias do sistema. A decisão também foi influenciada pelo facto de a atividade solar estar num momento de pico. Inicialmente, estimou-se que até 6.000 aeronaves da família A320 - o avião mais entregue da história - poderiam estar potencialmente envolvidas, quase metade da frota. Mais tarde, esse universo foi revisto para cerca de 1.500 aviões, segundo informações publicadas pelo jornal francês Les Échos.

Atualização emergencial do software do Airbus A320 aplicada em 24 horas

Em coordenação com autoridades europeias e norte-americanas, a Airbus solicitou às companhias aéreas que, na sexta-feira, 28 de novembro, reinstalassem uma versão anterior e estável do software - e que o procedimento fosse feito antes de qualquer novo voo. A tarefa em si era simples, levando aproximadamente 15 minutos, mas exigiu execução simultânea em centenas de aeronaves.

Na França, Air France e Transavia concluíram o trabalho durante a madrugada de sexta para sábado, permitindo a retomada normal das operações já na manhã do dia 29. Situação semelhante ocorreu com easyJet, Wizz Air e grandes companhias dos Estados Unidos, que fecharam tudo ao longo do fim de semana, apesar do fluxo excepcional do feriado de Ação de Graças (Thanksgiving). Ainda assim, houve atrasos em algumas empresas que não tinham equipamento suficiente para carregar a versão do software com rapidez.

Além da reinstalação, este tipo de resposta costuma envolver medidas operacionais complementares: verificação reforçada de registos de manutenção, conferência cruzada das versões instaladas por número de série e maior atenção aos boletins de “tempo espacial”, já que tempestades solares podem aumentar a incidência de eventos que afetam eletrónica embarcada.

O fantasma do 737 MAX e o impacto na frota

O caso não é neutro em termos de efeitos colaterais. A atualização agora questionada introduzia melhorias de proteção que, por enquanto, ficam desativadas até que um conserto definitivo seja validado. Além disso, alguns A320 mais antigos terão de substituir por completo o computador de bordo, em vez de apenas receberem um ajuste de software.

A rapidez da Airbus expõe o clima de uma indústria ainda marcada pela crise do Boeing 737 MAX. O fabricante europeu procurou não tratar a falha como algo menor, justamente por causa do potencial de gravidade, e apostou numa postura de máxima transparência.

A vulnerabilidade do ELAC a radiações solares também levanta dúvidas técnicas importantes. Em 2008, um A330 da Qantas já tinha enfrentado problemas significativos associados a esse mesmo fenómeno. Por lógica, esse tipo de ameaça precisa ser considerado sempre que se coloca em serviço qualquer atualização, especialmente em sistemas críticos de controlo de voo.

Também vale notar que, embora aeronaves modernas sejam desenhadas com redundâncias e tolerância a falhas, a crescente complexidade do software embarcado aumenta a necessidade de testes que simulem condições extremas - incluindo radiação - antes da liberação em larga escala. Isso ajuda a reduzir a chance de uma correção “melhorar” um ponto e, ao mesmo tempo, abrir uma nova superfície de risco em outro.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário