Um avião cargueiro da Challenge Airlines não conseguiu completar a rota entre Liège e Nova York. Poucos minutos depois de sair do chão, o jato de quatro motores precisou retornar ao aeroporto. Como decolou com mais de 100 toneladas de querosene a bordo, o Boeing 747 teve de reduzir o peso em voo e esvaziar parte dos tanques durante quase uma hora.
Apesar de ser um procedimento conhecido na aviação, a cena costuma chamar a atenção - e causar espanto -, sobretudo quando envolve um “gigante dos céus” como o Boeing 747. No aeroporto de Liège, na Bélgica, no domingo, 14 de dezembro, a Challenge Airlines iniciou um voo cargueiro com destino a Nova York, nos Estados Unidos. Segundos após a decolagem, porém, um problema técnico identificado no trem de pouso acelerou a decisão de retornar, exigindo que a aeronave alijasse perto de 100 toneladas de combustível antes de pousar.
Por que um avião precisa ficar mais leve para pousar com segurança
Para tocar a pista de forma segura, a aeronave precisa respeitar um limite de massa que evite sobrecarga no trem de pouso, nas asas e na própria estrutura do avião. Esse teto de peso também ajuda a reduzir a distância necessária para frenagem e, assim, diminui o risco de ultrapassar o fim da pista.
Por isso, antes da decolagem, os pilotos calculam com precisão a quantidade de querosene a embarcar, considerando o tempo e a distância do voo, além de uma margem de segurança para eventuais esperas no ar ou mudanças de rota. Em condições normais, ao aterrissar, boa parte do combustível já foi consumida - e o pouso ocorre dentro do peso adequado.
O cenário muda quando o retorno precisa acontecer poucos minutos após a decolagem, em uma viagem que originalmente duraria mais de 6 horas. Em Liège, o Boeing 747 da Challenge Airlines, que decolou pouco antes das 10h30 daquele domingo, teve de aliviar o combustível nos tanques para atingir a massa-alvo de pouso. O quadrirreator passou a dar voltas nas proximidades do aeroporto e despejou entre 90 e 100 toneladas de querosene no ar.
Alijamento de querosene no Boeing 747: uma operação rara, porém legal
Embora tenha impacto ambiental e envolva riscos para a população, o procedimento é regulamentado. Para despejar querosene em voo, a aeronave deve estar a 6.000 pés de altitude (cerca de 2.000 metros). Na França, por exemplo, o esvaziamento é legal e autorizado pela Direção Geral da Aviação Civil (DGAC). No setor, ele é normalmente chamado de “alijamento” (em inglês, fuel dumping). E falhas técnicas não são o único motivo para que isso aconteça: emergências médicas também podem levar à necessidade de pouso imediato e, portanto, ao alijamento de combustível.
A área escolhida para o despejo varia conforme o nível de urgência do pouso e a posição do avião. Em geral, priorizam-se regiões sobre oceanos e mares ou locais afastados de cidades e áreas densamente povoadas. Ainda assim, em determinadas situações, não há tempo para esperar nem para se afastar do aeroporto. E, a cerca de 2.000 metros de altitude, as partículas do querosene ficam sujeitas à ação do vento, o que pode levá-las para além do ponto planejado.
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As companhias aéreas costumam tentar tranquilizar o público ao afirmar que a maior parte do querosene evapora durante a operação. Já a DGAC, na França, prefere falar em apenas alguns miligramas por metro quadrado. “Claro que isso não é neutro para o meio ambiente, mas a manobra busca salvar vidas”, declarou a administração em 2016, em entrevista ao jornal Le Figaro. No caso do Boeing 747 da Challenge Airlines, foram necessários quase 60 minutos para concluir o alijamento, com mais de 7 voltas no céu; depois disso, a aeronave pousou cerca de 15 minutos mais tarde.
Como o alijamento é feito e o que pode ser adotado como alternativa
Em aeronaves de grande porte como o Boeing 747, o sistema de alijamento permite liberar combustível de forma controlada para reduzir o peso até o limite compatível com um pouso seguro. A operação é coordenada com o controle de tráfego aéreo, que orienta a altitude, a área e os circuitos de espera, buscando minimizar riscos e organizar o espaço aéreo enquanto a tripulação executa os procedimentos.
Quando as condições permitem, uma alternativa ao alijamento é manter a aeronave em espera por mais tempo para consumir combustível naturalmente, até chegar ao peso adequado. Em emergências mais graves, porém, pode ser necessário pousar o quanto antes - e aí o alijamento se torna a forma mais rápida de atingir a massa-alvo, reduzindo a probabilidade de danos estruturais e aumentando a margem de segurança na frenagem.
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