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Acaba em 2026: o benefício fiscal que milhões de proprietários de imóveis de temporada na França usavam.

Mulher trabalhando em mesa com laptop e documentos, com vista da Torre Eiffel ao fundo.

De Paris ao litoral atlântico, proprietários de aluguéis por temporada que montaram a estratégia com base num regime fiscal “suave” vão encarar uma fase bem mais dura. Uma lei nova, apelidada em todo o país de “anti‑Airbnb”, muda a forma de tributação dos alugueis turísticos mobiliados a partir dos rendimentos de 2025 - e muita gente só sentirá o impacto quando entregar a declaração na primavera de 2026.

Lei Le Meur e o aperto sobre as locações turísticas de curta duração na França

A reforma nasce da lei Le Meur, aprovada oficialmente em novembro de 2024. O recado político não deixa margem a dúvidas: em áreas com falta de moradia, o objetivo é empurrar parte das unidades hoje dedicadas a estadias curtas de volta para o mercado tradicional de aluguel, onde residentes locais têm dificuldade para encontrar um lugar para viver.

Até aqui, a tributação era particularmente generosa com o aluguel turístico mobiliado não classificado anunciado em plataformas como Airbnb ou Abritel. Muitos anfitriões escolhiam o micro‑BIC (regime simplificado para rendas de natureza “comercial”) e contavam com um abatimento automático confortável.

Até os rendimentos de 2024, os aluguéis turísticos de curta duração podiam aplicar abatimento de 50% sobre até € 77.700 por ano.

Na prática, isso fazia com que apenas metade do faturamento com aluguéis entrasse na base de cálculo do imposto de renda e das contribuições sociais, tornando a temporada um concorrente muito forte frente ao aluguel tradicional sem mobília e até frente a outras formas de investimento.

Importante: não é o aluguel mobiliado de longo prazo usado como residência principal do inquilino que está no centro do alvo. Esse tipo de locação mantém o teto do micro‑BIC em € 77.700 com abatimento de 50%. O foco recai, sobretudo, sobre a ocupação turística de curta duração - em especial quando o imóvel inteiro fica fora do mercado de longo prazo.

O que “some” na prática em 2026 (na declaração dos rendimentos de 2025)

O que muita gente descreve como “o fim” em 2026 é, na verdade, o desaparecimento da vantagem fiscal ampla a que vários anfitriões se habituaram. A regra passa a valer a partir de 1º de janeiro de 2025, mas o custo aparece de forma concreta em 2026, quando os contribuintes declararem os rendimentos de 2025.

Para o mobiliado turístico não classificado, dois pontos ficam mais restritivos ao mesmo tempo:

  • O teto do micro‑BIC cai de € 77.700 para € 15.000 por ano.
  • O abatimento automático desce de 50% para 30% da renda bruta.

O efeito combinado é pesado: muitos proprietários saem do micro‑BIC porque ultrapassam € 15.000 anuais; e quem continuar dentro do limite passa a proteger uma parcela menor do faturamento com o abatimento padrão.

Exemplo: um anfitrião que fatura € 20.000 por ano com curta duração passaria a ser tributado sobre € 14.000, e não mais sobre € 10.000 no micro‑BIC.

Esse retrato simples já indica a tendência: a base tributável cresce de forma sensível, mesmo para quem tem um portfólio pequeno.

micro‑BIC x regime real (régime réel): diferenças que mudam a conta do anfitrião e do LMNP

No micro‑BIC, o fisco aplica um desconto fixo sobre o total recebido e tributa o restante. A gestão é mais leve porque você não precisa apresentar uma contabilidade detalhada. Com o novo abatimento de 30%, passa a incidir imposto sobre 70% do que foi faturado com locação turística de curta duração.

Já o regime real (régime réel) - muito usado por quem está no estatuto de LMNP (location meublée non professionnelle) - funciona por outra lógica. Em vez de abatimento automático, você deduz despesas efetivas, como:

  • juros do financiamento,
  • seguro,
  • imposto predial (taxe foncière),
  • taxas de administração e de imobiliária,
  • reparos e manutenção,
  • contas de energia e outros custos relacionados.

Além disso, existe a amortização (depreciação) do imóvel e do mobiliário ao longo de vários anos. É um lançamento contábil que não exige saída de caixa imediata e, ainda assim, reduz o lucro tributável. Em muitos casos, o resultado é um lucro fiscal muito baixo - ou até zero - por um período relevante.

Por que os rendimentos de 2025 e os boletos de 2026 viram um divisor de águas

A administração tributária francesa confirmou o calendário: a mudança começa a contar para o que for recebido a partir de 1º de janeiro de 2025. As declarações serão feitas na primavera de 2026, momento em que muitos proprietários verão, pela primeira vez, notificações de imposto mais altas.

Tipo de locação (França) Teto micro‑BIC (2024) Abatimento (2024) Teto micro‑BIC (rendimentos 2025) Abatimento (rendimentos 2025)
Turística de curta duração, não classificada € 77.700 50% € 15.000 30%
Mobiliado de longo prazo (residência principal do inquilino) € 77.700 50% € 77.700 50%

Do lado do governo, a expectativa é que a redução do benefício fiscal devolva parte dos imóveis ao aluguel de longo prazo. Para o proprietário individual, porém, isso vira uma decisão estratégica para tomar já, não apenas um detalhe de declaração.

Como reagir: caminhos para quem é LMNP e aluga por temporada

Para quem está em LMNP, muitos consultores passaram a tratar o regime real como a opção “padrão” quando o faturamento supera € 15.000. O micro‑BIC perde atratividade com o novo limite e o abatimento menor.

O regime real exige mais organização: controle de documentos, guarda de notas e faturas e, na prática, costuma ser mais seguro trabalhar com um contador que conheça locação imobiliária na França. Em contrapartida, a flexibilidade aumenta e, frequentemente, a carga tributária final diminui ao longo dos anos.

Para muitos proprietários de locação sazonal, migrar para o regime real tende a ser a principal forma de evitar um salto grande no imposto em 2026.

A pergunta central é objetiva: suas despesas reais + amortização superam o abatimento fixo de 30%? Se a resposta for sim, permanecer no micro‑BIC geralmente deixa dinheiro na mesa.

Um ponto adicional, muitas vezes ignorado no planejamento: a mudança fiscal não anda sozinha. Em várias cidades, regras municipais e pressões locais sobre moradia podem endurecer (limites de noites, autorizações, registros e fiscalização). Rever a estratégia agora também ajuda a reduzir risco regulatório, não apenas imposto.

Alternativa: classificar o imóvel como meublé de tourisme

Outra saída é obter a classificação oficial de meublé de tourisme (mobiliado turístico classificado). Essa classificação é concedida por um organismo autorizado após vistoria e, em geral, mantém um tratamento fiscal mais favorável do que o aluguel turístico não classificado.

Com o imóvel classificado, o proprietário pode conservar um micro‑BIC mais vantajoso, com tetos mais altos e abatimento de 50%, mas sob condições mais rigorosas. E não é só burocracia: o imóvel precisa cumprir padrões de conforto e equipamentos - da qualidade das camas à estrutura de cozinha, itens e funcionalidades.

Para alguns, o esforço de adequação coincide com aquilo que hóspedes já esperam encontrar. Para outros, o custo de melhorias, inspeções e eventuais exigências locais pode anular o ganho fiscal.

Três cenários práticos que proprietários estão simulando para 2025

Para visualizar o impacto, considere três casos simplificados (rendimentos de 2025):

  • Apartamento pequeno numa cidade, com € 12.000/ano: ainda é possível ficar no micro‑BIC com abatimento de 30%, então € 8.400 entram como base tributável. Se despesas e amortização forem baixas, o regime real pode não trazer grande vantagem - mas vale pedir uma simulação.
  • Casa de férias no litoral, com € 25.000/ano: o micro‑BIC deixa de ser permitido por causa do teto de € 15.000. O dono precisa ir para o regime real ou mudar o modelo de uso. Com juros, encargos e amortização, o lucro tributável pode cair bem abaixo do que seria uma base equivalente a 70% do faturamento.
  • Portfólio com dois apartamentos, total de € 40.000/ano: antes, já ficava próximo do teto antigo e tende a sentir a mudança com força. Passar ao regime real - ou combinar aluguel de longo prazo com temporada - vira decisão de negócio, não apenas “ajuste de imposto”.

Na prática, também ajuda criar um checklist de documentação ainda em 2025: extratos de plataformas, comprovantes de taxas, seguros, despesas de manutenção, contas de energia, notas de compra de móveis/eletrodomésticos e contratos de financiamento. Sem isso, o regime real perde parte do potencial.

Conceitos essenciais antes de 2026 (micro‑BIC, LMNP e amortização)

Para quem não é francês ou está a começar a investir, três noções fazem diferença:

  • micro‑BIC: regime simplificado aplicado a pequenas receitas “comerciais” (incluindo certos aluguéis mobiliados). Em vez de deduzir despesa por despesa, aplica-se um abatimento fixo sobre a receita bruta. É simples, mas fica menos interessante quando o abatimento diminui.
  • LMNP (location meublée non professionnelle): estatuto para pessoa física que aluga imóvel mobiliado sem ser “profissional” da atividade. Permite optar entre micro‑BIC e regime real, conforme renda e estrutura de custos.
  • Amortização (depreciação): mecanismo contábil que distribui o valor do imóvel e do mobiliário por vários anos, gerando despesa dedutível sem pagamento imediato. Muitas vezes, transforma um aluguel lucrativo em um resultado com baixa tributação.

Decisões estratégicas e riscos no médio prazo

O proprietário de temporada na França agora precisa fazer mais do que “encher o calendário”. A conta passa a exigir atenção ao lucro líquido após impostos, às regras específicas da cidade e ao ambiente social em regiões com forte disputa por habitação.

Também existe um risco de calendário: se a pessoa esperar até 2026 para agir, o primeiro ano sob as novas regras já terá passado. Quem se antecipa em 2025 ainda pode escolher o regime fiscal, ajustar a quantidade de noites alugadas, solicitar a classificação meublé de tourisme ou até redirecionar o imóvel para aluguel de longo prazo.

Ao mesmo tempo, o fim do benefício “fácil” não significa que a locação de curta duração deixa automaticamente de valer a pena. Um imóvel bem localizado, com boa gestão e custos bem documentados pode continuar rentável no regime real, especialmente quando juros, despesas e amortização são aproveitados de forma completa. Em 2026, tende a sair na frente quem fizer simulações realistas - não quem apenas perseguir reservas.

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