Há pouco mais de um ano, eu comentava que, no verão de 2024, “aconteceu algo que muita gente jurava ser improvável: uma moto chinesa liderou as vendas em Portugal - a CFMoto 450 MT. Uma trail de média cilindrada, com motor bicilíndrico, ciclística de moto maior e preço de moto menor”.
Na sequência, eu reforçava que “nem a origem, nem o nível de notoriedade da marca atrapalharam o sucesso desse modelo”. Mais de doze meses depois - e sem qualquer surpresa - a história se repetiu: em 2025, ela voltou a ser a moto mais vendida em Portugal. Quem quiser, pode reler tudo no link citado na época. Não ficou datado…
O motivo de a CFMoto 450 MT ter virado esse fenômeno dá para resumir em poucos pontos: preço agressivo, design muito convincente, desempenho na medida certa e um posicionamento de mercado certeiro. Havia uma demanda reprimida por uma trail de média cilindrada exatamente assim, mas as marcas tradicionais não quiseram (ou não conseguiram…) perceber o recado.
Eu sempre enxerguei o mercado de motos como um termômetro útil para antecipar tendências na indústria automotiva - com os ajustes que a comparação exige, claro. Em geral, a leitura funciona. Então a pergunta inevitável aparece: é só questão de tempo até um carro chinês assumir o topo das vendas nacionais? Mais ou menos.
Antes de chegar lá, vale adicionar um ângulo que costuma pesar no mundo real: rede de concessionárias, pós-venda e disponibilidade de peças. Em moto, o consumidor muitas vezes aceita “arriscar” mais - tanto pelo tíquete médio quanto pela simplicidade mecânica. Em carro, essa conta fica mais rígida, porque qualquer insegurança no suporte vira um freio imediato na decisão.
O carro chinês mais vendido em Portugal
Por enquanto, não dá para ver no horizonte uma “CFMoto 450 MT de quatro rodas”. Existem carros chineses muito interessantes, mas eles ainda não chegam com um preço suficientemente diferente para se destacar das marcas tradicionais (ou para conquistar uma vantagem realmente clara). E, quando aparecem opções com valores mais baixos, nem sempre vem junto o apelo emocional que muitos compradores ainda fazem questão de ter.
Aqui, não é mais opinião: são os números. Ao olhar a lista dos 50 carros mais vendidos em Portugal em 2025, não aparece nenhum modelo de origem chinesa nesse ranking.
Além disso, o valor de compra de um automóvel é bem mais alto - não é a mesma coisa que levar uma moto de € 7.000 para casa - e existe, ainda, o peso do valor de revenda. É só uma questão de tempo? Talvez. E não dá para subestimar a “China speed”, uma expressão que descreve muito bem a rapidez de resposta da indústria chinesa.
Outro ponto que costuma ser decisivo no automotivo é o ecossistema: financiamento, seguros e previsibilidade de custos ao longo dos anos. Quando essas peças se encaixam, a adoção acelera - e, se a China ajustar rapidamente preço, imagem e confiança de longo prazo, a mudança pode acontecer mais cedo do que muita gente imagina.
O primeiro alerta veio com a roda dianteira no ar. O segundo, da Espanha. Mas isso fica para outra conversa.
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